DRAMA DE MARIANA: memórias entre a lama

janeiro 29, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

foto de Tainá com microfoneTainá Fernanda PEDRINI (Colaboradora Permanente deste Blog; Pós-graduanda em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (IBET). Graduada em Direito na Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI) cv lattes: http://lattes.cnpq.br/7222274253824129

” ‘O que eu vou fazer agora da minha vida? Perdi tudo! Não tenho mais casa, roupas, objetos, recordações, nem meus documentos que comprovam quem eu sou. Aliás, quem sou eu? No meio desse mar de lama parece que me perdi ‘[1].

No dia 05 de novembro de 2015, ocorreu o rompimento da Barragem do Fundão, de propriedade da empresa Samarco Mineração, sediada em Minas Gerais (MG). Os rejeitos jorraram pelo rio Gualaxo do Norte, rio do Carmo e terminaram no rio Doce. A lama, por fim, encontrou o município de Regência, no Espírito Santo[2].

Observar o drama[3] de Mariana (MG), mais de dois anos após seu acontecimento, traz à tona nossa frágil humanidade. Ainda não é possível mensurar a dimensão de seus impactos, mas sabe-se que são imensos[4]. Pessoas que lá residiam não perderam somente bens materiais – o que já seria muito em uma sociedade materialista, em que o grau de inserção social é medido pela obtenção de capitais. Perderam também suas histórias de vida vinculadas às recordações que se foram com a lama, permanecendo, de ambas, apenas vestígios. Isto ainda se soma àquelas pessoas que viram seus familiares sendo arrastados pela correnteza tóxica.

Os documentários produzidos afloram diversos sentimentos, dentre eles a vergonha proveniente da responsabilidade pelo fato e da impossibilidade de reverter o ocorrido. Eleva-se a questão da utilização indeliberada dos recursos naturais, corroborando a ideia de Ulrich Beck[5] de que a mesma sociedade que produz riscos é por eles atingida em determinado tempo – o risco imprevisível e invisível se tornou, então, destruição real em Mariana

A Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), em parceria com a Universidade Regional de Joinville (UNIVILLE) e Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e em articulação com outros colaboradores, produziram documentário[6] revelando resultados do drama de Mariana, entrevistando vítimas do ocorrido, inclusive.

Uma delas, ao descrever o retorno público e social às comunidades atingidas, chama a atenção ao dizer:

[…] tem muita gente com a intenção de ajudar, de ajudar… vêm e arrancam uma lasca e está largando a gente desprotegido. E aí, ao invés desta lasca voltar para a gente servindo de uma bagagem, as pessoas às vezes se negam a passar para a gente essa lasca que levou. […] Deram muito depoimento, falaram muita coisa, às vezes na expectativa de pedir socorro e essas pessoas usam isso como arma contra a gente[7].

O risco, apesar de atingir a sociedade em sua totalidade, é distribuído desigualmente, assim como a possibilidade de reação a destruição por ele causada[8]. As camadas mais pobres da sociedade geralmente são as mais afetadas, em razão da localização de sua moradia, dificuldades de contornar essas situações de risco e ausência de amparo no momento posterior à destruição ambiental ocorrida, em alusão ao caso de Mariana.

Diversas matérias foram produzidas e veiculas na mídia.

No entanto, nota-se a escassa realização de políticas em benefício dessas pessoas desabrigas, doentes e desorientadas. Diga-se, principalmente, a negligência e inoperância governamental[9]. O drama de Mariana traz importante reflexão sobre a má gestão de recursos ambientais, bem como o nosso papel de sociedade em cobrar, como consumidores, novas condutas do setor empresarial. Mas afinal, após todo o drama de Mariana, o que temos feito?”

[1] NUNES, Ana Rapha. Mariana. 2 ed. Curitiba: InVerso, 2016, p. 79.

[2] MOTA, Camilla Veras. Após dois anos, impacto ambiental do desastre em Mariana ainda não é totalmente conhecido.2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41873660>. Acesso em: 22 jan. 2018.

[3] Mario Sergio Cortella explica a utilização do termo drama para o caso de Mariana. “Tragédia é tudo aquilo que acontece sem que o ser humano decida, sem que o ser humano tenha responsabilidade. Por exemplo, Mariana no Brasil, não é uma tragédia, é um drama. Para ser uma tragédia, teria que ser algo que nós seres humanos não tivéssemos nenhum tipo de responsabilidade. […] Trágico é tudo aquilo que não tem interferência humana”. (MARIO S CORTELLA FAZ REFLEXÃO SOBRE OS ACONTECIMENTOS DE MARIANA E PARIS. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=vIkLag8FuWQ  >. Acesso em: 22 jan. 2018.

[4] MOTA, Camilla Veras. Após dois anos, impacto ambiental do desastre em Mariana ainda não é totalmente conhecido.

[5] “De um lado, muitas ameaças e destruições já são reais e irreais. De um lado, muitas ameaças e destruições já são reais: rios poluídos ou mortos, destruição florestal, novas doenças etc. De outro lado, a verdadeira força social do argumento do risco reside nas ameaças projetadas no futuro. São, nesse caso, riscos que, quando quer que surjam, representam destruições de tal proporção que qualquer ação em resposta a elas se torna impossível […]”. (BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução de Sebastião Nascimento. 1 ed. São Paulo: Editora 34, 2010).

[6] MAIS QUE A LAMA: MEMÓRIAS, AUSÊNCIAS E HISTÓRIAS. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=RP6QFcJgsrA>. Acesso em 22 jan. 2017.

[7] MAIS QUE A LAMA: MEMÓRIAS, AUSÊNCIAS E HISTÓRIAS. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=RP6QFcJgsrA>. Acesso em 22 jan. 2017.

[8] MOTA, Camilla Veras. Mariana, 2 anos: o trágico dilema da família que precisa escolher qual dos filhos doentes tratar.2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41812598>. Acesso em: 23 jan. 2018.

[9] “A primeira ação conjunta que se esperava do governo era a identificação rápida e precisa do material que jorrou da barragem. Granulometria, densidade, composição química, potencial de lixiviação de intoxicantes, dentre outros para só assim poder avaliar os possíveis impactos para a saúde humana e a biota. Como isso não foi feito, surgiram especulações sobre a toxicidade, o arsênio se tornou metal (é um metalóide), o material particulado se tornou solúvel, e assim o mar de lama invadiu também o bom senso”. (JARDIM, Wilson de Figueiredo. O desastre de Mariana é o retrato do Brasil. 2015. Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2015/11/23/artigo-o-desastre-de-mariana-e-o-retrato-do-brasil >. Acesso em: 23 jan. 2018).

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