Fundamentos Teóricos e Sociais sobre a Percepção da Violência Cotidiana

março 30, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERNosso novo Colaborador , Prof. Dr. Giancarlo MOSER (Pós-Doutorado pela FGV-2010, Doutor em Ciências Sociais -2007, Mestre em Turismo, ênfase em Patrimônio Histórico e Cultural -2001, Especialização em Cultura -1997, Universita di Trento, Graduado em História pela UFSC -1992, Licenciado em Sociologia -1993 e Processos Gerenciais pela UNIASSELVI -2008, e Doutorando no Programa de Turismo, com ênfase em Patrimônio Histórico, da UNIVALI (2015-2018).Professor da UDESC nos Cursos de Ciências Econômicas e Administração Pública, Diretor Acadêmico da Faculdade CESUSC e Professor do Mestrado Profissional da FGV), elaborou texto original para publicação neste Blog, no qual pontifica a abordagem inteligente de tema atualíssimo , a violência. Como segue:

“Vivemos em um período que a nossa percepção da violência é esmagadora, uma entidade onipresente no cotidiano. Nós a vemos em programas de televisão, filmes, videogames etc; lemos sobre isso em artigos, revistas e livros; falamos sobre isso – literalmente, quando contamos o que está acontecendo no mundo, mas, mais freqüentemente, figurativamente, com uma série de frases violentas que permeiam nossa fala cotidiana; e nós a experimentamos, direta ou indiretamente, em nossas casas, escolas, locais de trabalho, entre outros.

A violência é um fenômeno social. Para que uma ação seja considerada violenta, ela precisa de uma vítima ou de um grupo de vítimas. A natureza interpessoal da violência parece exigir explicações ou entendimentos que também são interpessoais. Em vez de olhar dentro do agressor para as causas da violência, as perspectivas sociais procuram na situação social fatores que podem explicar por que a violência não é universal, mas varia em frequência e intensidade. A questão social não é: “Por que a violência ocorre?”, mas sim “Por que esta atividade natural e indesejável acontece mais em algumas circunstâncias do que em outras?”. A atenção aos aspectos sociais da violência pode parecer desculpar as ações individuais e, como resultado, encorajar mais violência. Pelo contrário, esta revisão pretende ajudar a prevenir a violência, contribuindo para a compreensão das influências sociais que contribuem para a violência.

As experiências individuais das pessoas se tornam sociais quando são compartilhadas. Os indivíduos podem estar no mesmo lugar ou serem expostos aos mesmos eventos, ou podem usar meios simbólicos para comunicar suas experiências a outros. São as experiências combinadas de muitos indivíduos, compartilhados dessa maneira, que compõem uma cultura, uma sociedade ou uma família. Dentro das culturas, sociedades e famílias, as experiências compartilhadas são organizadas em categorias de eventos referidos de forma variada como conceitos, construtos e esquemas.

Nesse sentido, partimos pela definição elaborada por Geertz, no qual cultura compõe um sistema entrelaçado de símbolos compartilhados pelos atores sociais, por meio dos quais eles se comunicam, desenvolvem seu conhecimento e encontram sentindo nos acontecimentos e nas atividades cotidianas.

Nessa interpretação, a cultura compõe a dinâmica entre o ethos de um povo e sua visão de mundo, representado uma relação circular entre os elementos valorativos de uma cultura – como seus aspectos morais e estéticos – e os aspectos cognitivos e existenciais. Segundo Geertz (1989, p. 143), o ethos de um povo é compreendido como sendo “o tom, o caráter e a qualidade da sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição” é atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete. A cultura é, portanto, o contexto no qual ocorrem os acontecimentos sociais, transmite-se comportamentos, constroem-se conhecimentos e se configuram instituições.

A violência nem sempre teve a mesma preocupação cultural e social que tem hoje. No passado, alguns atos violentos eram integrados à sociedade, justificando-as ou atribuindo as ações à psicopatologia individual. No ambiente familiar, o homem violento era visto como impondo uma regra natural de que os homens deveriam dirigir as atividades de suas esposas e filhos (exemplo, o Pater Familias dos antigos romanos). A violência em um contexto político – guerra e revolução – era vista como o resultado inevitável quando opositores governantes lutavam por recursos ou quando um povo oprimido tentava se libertar. Quando as ações de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos eram muito difíceis de justificar, as sociedades se protegiam julgando que o ofensor era diferente de outras pessoas. Ao longo dos anos, esses indivíduos eram vistos como possuídos por demônios, sofrendo de febre cerebral, retardados mentais ou perdendo conexões emocionais com outros seres humanos.

Há debates contínuos sobre se a Sociedade realmente se tornou ou não mais violenta. Relatos descrevem um mundo mudado – aquele em que a comunidade idílica dos anos 50 deu lugar a uma sociedade violenta caracterizada por guerras de drogas, assédio sexual contra crianças, roubos e assassinatos nas ruas do bairro e violência nos corredores da escola. Alguns estudiosos contestam esses relatos, sugerindo que a comunidade pacífica – se é que já existiu – não era tão prevalente nas sociedades ocidentais quanto em várias sociedades tribais ou indígenas. A harmonia social, portanto, é apenas um tipo de experiência social: uma da qual pode ser possível aprender como ajudar as comunidades modernas a avançar para o ideal de uma sociedade livre de violência.

Um ponto de vista explica a aparente mudança na violência como o colapso de um “mito” que prevaleceu na sociedade ocidental (Steinmetz & Straus, 1974). De acordo com essa visão, o mito de famílias harmoniosas e amorosas que participavam de uma sociedade que oferecia a liberdade da dor, opressão e carência era perpetuado por um pequeno grupo de elite que controlava as imagens públicas. Pessoas cujas vidas não se conformavam com o mito vivido “do outro lado dos trilhos” e sua experiência social – em que espancamentos familiares, agressões em lugares públicos, fome e exploração sexual eram comuns – não eram compartilhadas com a sociedade maior. O mito foi exposto e a comunicação moderna eliminou as barreiras sociais, tornando visível a violência

Enfim, o discurso da violência perderia muito do seu poder se os grupos que diferem nas bases de gênero, raciais, étnicas e econômicas tivessem visões mais complexas e realistas uns dos outros. O diálogo genuíno deve reduzir a tendência de excluir “o outro” e justificar a violência. No nível da família, tem sido demonstrado que a troca genuína pode substituir a retórica do poder e da dominação: os relacionamentos do casal, bem como os relacionamentos entre pais e filhos, podem ser reestruturados com base no respeito mútuo.

Finalmente, a mídia tem uma responsabilidade especial pelo discurso da comunidade sobre a violência. A percepção de violência iminente, por exemplo, emergiu na atualidade, em grande parte, através de notícias amplamente divulgadas.”

“Referências:

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

STEINMETZ, Suzanne K.: STRAUS, Murray Arnold. Violence in Family. New York: Harper & Row, 1974.”

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Última atualização em 08 de Dezembro de 2018.
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