VIDAS SECAS: UMA FORTALEZA DIANTE DE CADA FRAQUEZA.

maio 14, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO LEUDONosso  Colaborador Permanente AFONSO LEUDO DE OLIVEIRA CARVALHO (Licenciado em Matemática pela UNIASSELVI, Especialista em Metodologias do Ensino de Matemática, Autor do Artigo Cientifico na Revista Percursos nº 10  da UDESC, com o título: “Ritmo, Poesia e Matemática”) contribui com magnífico texto  sobre a dicotomia FORÇA E FRAQUEZA na extraordinária obra VIDAS SECAS , o Romance magnífico de Graciliano Ramos!

foto capa vidas secasMerece leitura pausada e atenta !

Eis o inteiro teor:

“Vidas Secas, romance publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. A obra pertence à segunda fase modernista, conhecida como regionalista, e é qualificada como uma das mais bem sucedidas criações da época.

O livro possui 13 capítulos que, por não terem uma linearidade temporal, podem ser lidos em qualquer ordem. Porém, o primeiro, “Mudança”, e o último, “Fuga”, devem ser lidos nessa sequência, pois apresentam uma ligação que fecha um ciclo. “Mudança” narra as agruras da família sertaneja na caminhada impiedosa pela aridez da caatinga, enquanto que em “Fuga” os retirantes partem da fazenda numa busca incessante por melhores dias.

O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão. Personagens flutuam entre o essencialísmo e realidade de tal região. Fé e descrença.

A escolha do foco narrativo em terceira pessoa é emblemática, uma vez que esse é o único livro em que Graciliano Ramos utilizou tal recurso. Trata-se, na verdade, de uma necessidade da narrativa, para que fosse mantida a verossimilhança da obra. 

Ignorância e sabedoria nata. Os diálogos entre personagens, Sinha Vitória: mulher de Fabiano. Mãe de 2 filhos, é batalhadora e inconformada com a miséria em que vivem. É esperta e sabe fazer conta, sempre prevenindo o marido sobre trapaceiros. Fabiano: vaqueiro rude e sem instrução, não tem a capacidade de se comunicar bem e lamenta viver como um bicho, sem ter frequentado a escola. Ora reconhece-se como um homem e sente orgulho de viver perante às adversidades do Nordeste, ora se reconhece como um animal. Sempre a procura de emprego, bebe muito e perde dinheiro no jogo.
Filhos: o mais novo admira a figura do pai vaqueiro, integrado à terra em que vivem. Já o mais velho não tem interesse nessa vida sofrida do sertão e quer descobrir o sentido das palavras, recorrendo mais à mãe. Por fim e tão importante quanto os demais personagens, a cachorra Baleia e o Papagaio louro.
Patrão: fazendeiro desonesto que explorava seus empregados, contrata Fabiano para trabalhar. Surgem de momentos de verdadeiro delírio que, só a miséria e o sofrimento de um povo esquecido em suas desgraças podem flutuar por sobre uma paisagem rachada e seca; onde a vida se esqueceu de enterrar seus mortos que se arrastão no chape, chape das alpargatas, com seus calcanhares a sangrar.  Animais e seres humanos dividem o mesmo legado de realidade e direitos. Haja visto que a cachorra Balei e o louro (papagaio), eram tratados como membros da família –  como a baleia que engoliu Jonas e o regurgita em Nínive, na passagem bíblica, em que o profeta alimenta uma cidade de esperança de salvação; Baleia, a cachorra, caça, e traz, para alimentar a família, preás, que, os servem de alimento, revigorando a esperança de continuarem pelejando caatinga a dentro – grifo nosso.   “Nesse ponto Balei arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, sentiu cheiro de preás […] Minutos depois a preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim[…] Esperava com paciência a hora de roer os ossos (v.p.13 e 16). Quando ocorria de chover, algo raro naquele torrão, o patrão que o tratava como animal, dava a chance ao farrapo de gente: “Agora Fabiano era vaqueiro[…]Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras[…] sinhá Vitória e os meninos estavam agarrados a terra” (v.p.. 19). O patrão atual berrava sem necessidade com o subordinado Fabiano. Na seca, o verde que tinge o chão, nunca se sabe até quando alimentará o gado. “Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau (v.p. 23). Anos bons, misturados a anos ruins, essa era a receita de vida dessa família de retirantes. Fabiano era dado aos vícios de bebedeira e jogatina, triste perdição e desventura a quem já quase não tem com o que viver e ainda faz paragens no bar de seu Inácio para um trago e um carteado. Por ter ganho de um soldado amarelo num desses jogos, foi perseguido e jogado na cadeia como um bicho a quem ninguém respeita. “Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito[…]Impossível, só sabia lidar com bicho” (v.p. 35).

Os sonhos de sinhá Vitória eram parcos como a vida miserável que se habituara a viver. Quando desejava ao menos uma cama com o mínimo de conforto lembrou que até o papagaio havia lhes servido de refeição. ”pobre papagaio, gaguejava meu louro[…]pobre louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da família” (v.p. 43). Sinhá Vitória, articulava um plano de vender as galinhas e a marrã. Mas a maldita raposa havia comido a galinha pedrês mais gorda, “sinhá Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira” (v.p. 46). O sacrifício da cachorra baleia também é um momento marcante da narrativa. “A cadela Baleia estava para morrer, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas supuravam[…]Fabiano então resolveu matá-la” (v.p.80). Nascera com o destino de trabalhar para outros homens, que, por terem posses das terras, os escravizavam às necessidades primarias: comida, lugar para se amparar das intempéries da natureza feroz da caatinga e a dívida de favores do amo. “Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça[…]comido os legumes, roídas as espigas de milho, recorria á gaveta do amo[…]receava ser expulso da fazenda. E rendia-se” (v.p. 93). A ilusão da liberdade de ver os filhos numa condição melhor, fazia com que sinhá Vitória sonhasse com um novo mundo. Uma cidade maior e com estudos para redefinir o futuro da desgraça até então reconhecida como vida. “Uma cidade grande. Cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias[…]O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos como Fabiano e sinhá Vitória e os dois meninos” (v.p. 128).”

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Última atualização em 18 de Outubro de 2018.
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