A LEITURA DE SÊNECA: PROVOCAÇÕES PARA UMA SOCIEDADE ACELERADA

maio 29, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

foto de Tainá com microfoneNossa Colaboradora Permanente, a Pesquisadora Tainá Fernanda PEDRINI (Mestranda em Ciência Jurídica pela Widener University/Delaware Law School e pela Universidade do Vale do Itajaí-UNIVALI; Pós-graduanda em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (IBET); Graduada em Direito na UNIVALI; cv lattes: http://lattes.cnpq.br/7222274253824129) produziu texto em que prossegue com estimulação de reflexões a que deu início em texto intitulado  “Seremos nós narradores de meias verdades?” ( então inedito e  publicado originalmente neste Blog e disponível em:
http://conversandocomoprofessor.com.br/2018/03/10/seremos-nos-narradores-de-meias-verdades/ ).

Leia a seguir, o inteiro teor do novo  texto inédito, competentemente construído em sua lógica:  

“Somos, sem dúvida, a geração com maior acesso à informação, facilmente, disponível[1] em razão da evolução da inteligência artificial. “Uma criança de sete anos, na atualidade, provavelmente tem mais informações do que tinha um imperador no auge da Roma antiga e do que tinham Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, enfim, os grandes pensadores da Grécia antiga”[2]. Esse novo acesso à informação, trouxe, desde cedo, maiores exigências à Sociedade.

Em primeiro momento, sobre tema já tratado no texto intitulado “Seremos nós narradores de meias verdades”[3], neste Blog, encontra-se o afloramento do narcisismo “online”, por meio da exposição cada vez mais veemente da vida nas redes sociais. O patamar das “vidas perfeitas” dos outros observados parece cada vez mais inatingível.

Além disso, ocupamo-nos, prematuramente, de muitas atividades.  Crianças, v.g., “têm tempo para tudo, menos para ter infância. Seus pais as estressam com inúmeras atividades, sem saber que é na infância e na adolescência que se elaboram os principais núcleos socioemocionais de habitação do Eu, os quais subsidiam habilidades para o autocontrole, a proteção emocional, a consciência crítica, a proatividade, a tolerância, o altruísmo, a paciência, a capacidade de se colocar no lugar dos outros”[4].

Tal assunção de atividades é gradativamente aumentada com o passar dos anos. O estilo de vida representado pelo excesso de trabalho, metas, crises, “trabalho intelectual intenso, excesso de informações, tempo prolongado diante da TV, excesso de uso de smartphones e de internet […]”[5] preenche qualquer segundo possível do transcorrer dos dias.

Até os momentos direcionados ao descanso são utilizados para o recebimento de mais informações, com o avanço da tecnologia e de sua portabilidade. Não há tempo disponível para tanto. A mensuração subjetiva do tempo, aliás, remete à sua aceleração cada vez mais evidente. Não há tempo, realmente, ocioso.

Sêneca[6], pensador estóico, justamente, analisa a sensação de brevidade da vida em uma de suas obras. Contrariando a ideia de uma vida célere demais, aponta: ‘O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor’.

Embora denominado filósofo da Antiguidade, Sêneca reporta problemas ainda muito atuais e, à Sociedade acelerada, deixa relevantes provocações:

‘[…] Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução seguida? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu como planejaras! Quando empregaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres (4) prematuramente.Qual é pois o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa seja o último. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis  imortais. Ouvirás muitos dizerem: ‘Aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos.’ E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o qüinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!’[7].

Ler as obras de Sêneca nos remete aos simples comportamentos cotidianos, muitas vezes imperceptíveis, mas que, ao final, fazem grande diferença.

Aliás, a Filosofia tem muito a nos ensinar e é realmente lastimável a ausência de seu conhecimento pela população em geral, principalmente, no mundo acadêmico.

O tempo e a sabedoria antiga têm muito a nos ensinar.”

Notas:

“[1]Não necessariamente, no entanto, estudamos com maior qualidade. Sobre o assunto: SANTOS, José Francisco dos. Para refletir: artigos para a reflexão e discussão em filosofia, ética e temas transversais. Jundiaí: Paco Editoria, 2013, pp. 21-22. E, ainda: ‘Estamos na era da indústria do entretenimento e, paradoxalmente, na era do tédio. É muito triste descobrir que grande parte dos seres humanos de todas as nações não sabe ficar só, se interiorizar sic, refletir sobre as nuances da existência, se curtir sic, ter um autodiálogo’. (CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século. 1 ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 13).

[2] CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século, p. 107.

[3] PEDRINI, Tainá Fernanda. Seremos nós narradores de meias verdades?. Disponível em:
<http://conversandocomoprofessor.com.br/2018/03/10/seremos-nos-narradores-de-meias-verdades/>. Acesso em: 26 mai. 2018.

[4] CURY, Augusto. Ansiedade 2: autocontrole. São Paulo: Benvirá, 2016, p.76.

[5] CURY, Augusto. Ansiedade 2, p. 26.

[6] SÊNECA, Lúcio Anneo. Sobre a breviedade da vida.  Tradução de Lúcia Sá Rebello, Ellen Itanajara Neves Vranas e Gabriel Nocchi Macedo. Porto Alegre: L&PM, 2008, p.3. Título Original: De brevitale vitae.

[7] SÊNECA, Lúcio Anneo. Sobre a breviedade da vida, pp. 5-6.”

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