SAGARANA: PÉTALAS E ESPINHOS DA ROSA NO ROSA!

junho 24, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO LEUDOHoje, mais uma contribuição preciosa de nosso Colaborador Permanente AFONSO LEUDO DE OLIVEIRA CARVALHO (Licenciado em Matemática pela UNIASSELVI, Especialista em Metodologias do Ensino de Matemática, Autor do Artigo Cientifico na Revista Percursos nº 10  da UDESC, com o título: “Ritmo, Poesia e Matemática”).

Desta vez descreve e analisa SAGARANA, do genial Guimarães Rosa! A seguir:

FOTO Capa-do-Livro-Sagarana“Primeira obra de Guimarães Rosa. Os contos foram escritos em 1937, mas publicados em 1946, e o Livro traz nove, nos quais o universo do sertão, com seus vaqueiros e jagunços, estão presentes. Os narradores de Sagarana têm o estilo marcante criado por Guimarães Rosa, cuja principal característica é a oralidade.

Histórias e estórias se fazem presentes na estrutura narrativa que se desenrola nos contos: O burrinho pedrês ,
A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado; Conversa de bois e, por último, A hora e a vez de Augusto Matraga, que analisaremos  neste presente texto. Em relação ao foco narrativo, com exceção dos contos “Minha Gente” e “São Marcos” – que são narrados em primeira pessoa –, os demais possuem narradores em terceira pessoa. Quanto ao tempo e ao espaço de  ‘Sagarana’, sobre tempo elemento, vale destacar a linearidade da narrativa, que se desenvolve na maior parte sob o tempo psicológico dos personagens. É de suma importância identificar os processos de formação de palavras, recorrentes nos textos rosianos; verificar o aspecto semântico do léxico; compreender a elaboração do mitopoético na prosa rosiana e, constatar se o processo de formação de palavras pode ser um fator determinante na formação do mitopoético. Sabe-se que em meados da terceira geração modernista brasileira, a linguagem literária conheceu as inovações linguísticas do escritor João Guimarães Rosa, que constituiu verdadeiro marco na história da prosa moderna. Sua composição artística foi pautada na originalidade das formas e no consequente aprofundamento temático, utilizando-se de inúmeros recursos que compõem o universo vocabular e concebendo, assim, um experimentalismo fundamentado pela estruturação de realidades expressivas que transcendem os aspectos formais dos vocábulos e atingem uma inesperada e representativa multiplicidade de sentidos. O espaço é quase sempre Minas Gerais. Mais especificamente, o interior do estado. Vale uma atenção maior para o nome dos povoados e vilarejos dos contos. ‘Arraial Nossa Senhora das Dores do Córrego Murici’. (v.p.341).

Nesse processo, o autor filtrou o que havia de melhor no texto, utilizando em seu peculiar processo de invenção de palavras o hibridismo: ‘Deix’eu ver![…]Cai n’água, barbado!’ (v.p.343),que consiste na formação de palavras pela junção de radicais de línguas diferentes. O título do livro é composto dessa forma. ‘Saga’, termo de origem germânica, quer dizer ‘canto heroico’ e é utilizado para definir narrativas históricas ou lendárias; ‘rana’ termo de origem indígena, significa ‘espécie de’ ou ‘semelhante a’. A trajetória heroica de Augusto Matraga, ‘Matraga não é Matraga, não é nada[…]Ou Nhô Augusto’(v.p.341).  Que desce do espaço dos poderosos, ‘Mais estúrdio, estouvado e sem regra, estava ficando com dívidas enormes e falta de crédito’(v.p.346). Para o dos oprimidos e marginalizados.  ‘Nhô Augusto. Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato’ (v.p.346). recorda-nos o fato de que realmente parece não haver mais espaço para as grandes epopeias clássicas, para os heróis míticos do passado, pois o homem moderno traz em si não apenas o herói, mas também o covarde, não só o bem, mas também o mal, está, como o protagonista comprova, mais próximo do homem barroco com suas dualidades e ambiguidades do que do clássico.

As verdadeiras epopeias modernas, como podemos considerar A hora e vez de Augusto Matraga, são protagonizadas por homens comuns que se entregam à derrota ou lutam arduamente através de seus corpos e de suas almas à espera de que surja a sua hora e vez.  Personagem Augusto Esteves Matraga. ‘Ele tinha outros prazeres[…]Uma meninice a louca e à larga’ (v.p.346). É o protagonista da obra. Muda de nome de acordo com as passagens significativas de sua vida, o que nos permite enxergar nele uma projeção dos herois míticos. Matraga transforma-se num homem bom e abnegado, trabalhador e rezador, depois de ter sido mau, mulherengo e violento. ‘É que nem cobra má, quem vê tem de matar por obrigação’ (V.P.350).  Seu comportamento desregrado levou-o a perder a fortuna, a mulher e a filha, ‘Dionóra amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas, e o suportara os demais’ (v.p.346). Tendo quase perdido a vida. Depois de uma surra aplicada pelos capangas do Major Consilva, ‘Arrastem p’ra longe, para fora das minhas terras…marquem a ferro, depois matem’ (v.p.351). Matraga sentiu-se renascer como outro homem. Foi obrigado a esconder-se dos inimigos num sítio com um casal de pretos velhos que o salvou. ‘Cada um tem sua hora e sua vez: você há de ter a sua’ (v.p.356). Dona Dionóra: Era mulher de Nhô Augusto. Acabou não aguentando mais as judiações do marido e seu descaso e fugiu com Ovídio. Mitinha: é filha de Nhô Augusto, Percebe ‘Por que é que o pai não gosta de nós, mãe?’ (v.p.347). Acaba se tomando prostituta. Major Consilva – Era inimigo de Nhô Augusto, tendo também sido inimigo do avô do protagonista. Homem mau, tem todo o poder depois da suposta morte de Nhô Augusto – Tião da Thereza, Conterrâneo de Nhô Augusto, encontra-o no povoado do Tombador e coloca-o a par dos acontecimentos posteriores à sua suposta morte. O enredo A hora e vez de Augusto Matraga recria uma verdadeira saga do homem na travessia por este mundo. Sua trajetória recria a passagem evolutiva em busca do aprendizado do viver e da ascensão espiritual em plenitude. Seu objetivo será ter sua hora e vez de entrar no Céu. É uma história de redenção e espiritualidade, uma história de conversão. ‘Peça a Deus assim[…]Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso’ (v.p 356). Ao longo do seu enredo o protagonista, passa do mal ao bem, da perdição à salvação. Augusto Matraga terminou sua trajetória matando o famoso chefe de jagunços Joãozinho Bem-Bem para salvar uma família inocente –  Joãozinho Bem-Bem famoso chefe de jagunços. Homem temido e destemido no sertão. Faz justiça com as próprias mãos ou armas, defendendo seus aliados e eliminando seus inimigos –  vê e pressente em Nhô Augusto uma força oculta que os aproxima.  ‘Põe a benção na minha filha, seja  onde esteja[…]E, Dionóra, fala que está tudo em ordem! Depois Morreu” (v.p.386).’

Vale a pena Ler SAGARANA!

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