MARX ESTÁ REALMENTE MORTO?

julho 8, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERNosso Colaborador Permanente Professor Doutor Giancarlo MOSER, contribui com mais um texto objetivo e estimulador de reflexões e debates, neste caso sobre o Marxismo, tema  muito delicado e sensível. Do ponto de vista científico, o assunto é sempre merecedor de pesquisas e estudos.

Eis o artigo:

“Antes de quaisquer críticas de cunho ideológico, alerto que esse texto é um ensaio que não defende o Marxismo enquanto possibilidade teórico-prática, mas é feita somente uma reflexão da maneira que alguns diagnósticos deste Autor encontram alguma ressonância no mundo contemporâneo, sem discutir pressupostos metodológicos, que estão bem disseminados em literatura especializada.

Dessa maneira, buscamos iniciar esta reflexão com esta assertiva: “O que a burguesia produz, acima de tudo, são seus próprios cúmplices”, escrita por Karl Max e Friedrich Engels há 170 anos, no Manifesto Comunista[i]. Mais a frente, os autores cravam esta outra: “Sua queda (da Burguesia) e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”. Sabemos bem que isso não se realizou e, ao contrário, provocou banhos de sangue e injustiças ao longo do planeta no Séc. XX e o Capitalismo hoje é dominante como sistema produtivo. Contudo, em um tipo de ironia histórica, que o filósofo Hegel (1989, p. 87)[ii] chamava de “Astúcia da Razão”, o Capitalismo cooptou seus cúmplices para mantê-lo vivo, como exemplo: a China, a maior Sociedade socialista do mundo, abastece empreendimentos capitalistas com mão-de-obra barata em todo o mundo.

Então, Marx está superado? Não exatamente! O que faz valer a pena ler Marx atualmente não é o seu prognóstico panglossiano de uma Sociedade comum, igualitária e pretensamente justa, mas os seus diagnósticos teóricos ainda identificáveis, que podem ser também prognósticos interessantes das relações hodiernas. Por exemplo, ele e Engels previram como a globalização funcionaria: “No lugar das antigas necessidades”, escreveram, “satisfeitas com a produção do país, encontramos novos desejos, exigindo para sua satisfação produtos de terras e climas distantes.” É por isso que os trabalhadores chineses fabricam produtos que nunca imaginamos existirem, muito menos os desejaríamos, e isso acabaria por nos converter em narcisistas politicamente quietos, sociopatas fronteiriços e sonâmbulos. É isso mesmo – estamos falando de Smarphones.

É difícil ler as primeiras páginas do ‘Manifesto Comunista’ sem pensar que vivemos em um mundo que Marx e Engels descreveram como uma: “Revolução constante da produção, perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, incerteza e agitação perpétua distinguem a época burguesa de todas as anteriores”. Nós habitamos um mundo exatamente assim, ainda mais intenso e disruptivo do que Marx e Engels ousavam imaginar. Essas palavras não apenas captam como Uber, AirBnb e os outros exemplos da economia de compartilhamento se apropriam de valores e padrões para ganhar dinheiro rápido (também chamados de Gig Economy, ou Freelance Economy que compreende, de um lado, trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício e, de outro, empresas que os contratam), mas também como o planeta é implacavelmente saqueado para satisfazer “megacorporações” globais, compostas de acionistas difusos que odeiam e evitam pagar impostos.

Podemos ver Marx ainda sob a ótica do Prof. David Harvey, geógrafo britânico com ampla bibliografia sobre Marx, que ao analisar a cidade de São Paulo[iii] apresentou uma dicotomia interessante, ou seja, uma cidade cuja base econômica é uma indústria automobilística que produz veículos, que passam horas em engarrafamentos, poluindo ruas e isolando indivíduos uns dos outros – um poderoso emblema de como no Livre Mercado as economias são inimigas das reais necessidades das pessoas reais.

Marx não previu o Facebook, mas ele entendeu o essencial do modelo de negócios de Zuckerberg certamente melhor do que os senadores americanos fizeram nas audiências recentes no Congresso. “A burguesia”, escreveu Marx, “não deixou nenhum outro nexo relacional entre o homem e outro homem do que o insensível ‘pagamento em dinheiro’. Afogou os êxtases mais celestiais do fervor religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo filisteu, na água gelada do cálculo egoísta”.

O Facebook, para não mencionar Amazon e Google, transformou os seres humanos em ativos exploráveis, que é o que Marx escreveu em “Das Kapital”, em 1867, falando sobre o “fetichismo da mercadoria” e que é dolorosamente real para nós hoje. Com essa assertiva, ele quis dizer como as coisas comuns que os trabalhadores produzem – iPads, carros, até mesmo a avalanche de novos livros em comemoração aos 200 anos de Marx – tornam-se, sob o Capitalismo, estranhamente singulares. Assim como em algumas religiões, um objeto investido de poderes sobrenaturais se torna um fetiche para aqueles que o adoram, de modo que as mercadorias sob o capitalismo recebem poderes mágicos – é só observar as bizarras filas de consumidores ávidos nas lojas da Apple para comprar o mais recente iPhone e que passam noites e dias ao relento para garantir o objeto de seu culto narcisístico – . Quando um iPhone é vendido, ele é trocado por outro produto (geralmente dinheiro). A troca não leva em conta o trabalho que foi feito pelo iPhone, e ainda menos o fato de que alguns dos trabalhadores mal pagos da Apple têm pensado em suicídio para escapar de suas vidas extenuantes, fabricando supostamente dispositivos para o consumismo fetichista global. “Uma mercadoria, portanto, é uma coisa misteriosa, simplesmente porque nela o caráter social do trabalho dos homens aparece para eles como um caráter objetivo, estampado no produto desse trabalho”, escreveu Marx. Nesse sentido, o Fetichismo da mercadoria pode ser explicado como a percepção das relações sociais envolvidas na produção, não como relações entre as pessoas, mas como as relações econômicas entre o dinheiro e as commodities negociadas no mercado. Sendo assim, o fetichismo da mercadoria transforma os aspectos subjetivos (abstração de valor econômico) em objetivos (coisas reais que as pessoas acreditam ter valor intrínseco).

O filósofo Lukács, que influenciou profundamente a Escola de Frankfurt, argumentou que um novo tipo de humano surge em um mundo onde o fetichismo das mercadorias[iv] é desenfreado. Esses novos seres humanos são tão degradados que comprar e vender é a sua essência: eu compro, portanto, eu sou! Em vez de nos unirmos para acabar com o consumismo desenfreado e que corrói nosso meio ambiente, compramos cada vez mais. Esse continua sendo o desafio. Precisamos que Marx nos ajude a entender o estado em que estamos, embora isso seja apenas um prelúdio para a luta maior, para a qual seus escritos são menos úteis: a saber, como sair disso.

[i] MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista, 1848. Porto Alegre: L&PM, 2009.

[ii] HEGEL. Introdução à História da Filosofia. São Paulo: NOVA cultural, 1989. Coleção “Os Pensadores”, p. 87.

[iii] HARVEY, David. Cidades Rebeldes: do direto à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

[iv] LUKÁCS, G. História e consciência de classe: Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.”

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