LETRAS CATARINENSES

dezembro 26, 2018 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

jose_braz_silveira fotoJosé Braz da SILVEIRA (Advogado e Professor; Mestre em Ciência Jurídica pela UNIVALI, Presidente da Academia de Letras de Biguaçu/SC) produziu, a convite deste Blog, um belo texto sobre as “Letras Catarinenses”, com ênfase para a Produção Literária e as Academias que congregam Escritores, especialmente em Santa Catarina.

Merece leitura atenta:

 “Inspirado na Academia Francesa de Letras, que remonta ao século XVII, Machado de Assis idealizou e fundou, em 1897, a Academia Brasileira de Letras.  Depois vieram as Academias de Letras dos Estados Membros da Federação, sendo a de Santa Catarina fundada em 1924. Mais recentemente, sobretudo nos últimos 20 anos, começaram a surgir as Academias de Letras dos Municípios e outras de âmbito Nacional ou Estadual que vêm ocupando espaços de grande destaque no campo literário. Praticamente todas têm como compromisso principal “cuidar” da Língua Portuguesa, entretanto, essa não tem sido a única tarefa exercida por essas instituições privadas. As Casas de Letras têm demonstrado extraordinária importância para a valorização da cultura e da educação, tão vilipendiadas ou, simplesmente, esquecidas pelos governos.

Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi cunhou uma frase que tem sido destacada com entusiasmo em discursos eloquentes, mas não tem sido levada a sério. “Ninguém se iluda: a cultura é o derradeiro baluarte da democracia”, disse o destacado imortal. A também acadêmica Ana Maria Machado, em recente entrevista, destacou com orgulho: “Nosso maior compromisso é o de cuidar da Língua Portuguesa”. Já a escritora mineira, radicada no Rio de Janeiro, Conceição Evaristo, que disputou a eleição para uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras com Cacá Diegues, foi crítica ao perguntar: “Quem é escritor? Quem escreve ou quem publica?”. Há quem já foi mais longe: “Quem deve ser considerado escritor? Quem publica ou quem tem suas obras lidas?”. A indagação faz sentido, pois em muitos casos, sucessos de vendas não prendem um leitor mais exigente até a décima página.

Passados mais de 120 anos da fundação da Casa de Machado de Assis e quase 100 anos da Academia Catarinense de Letras, já não se pode delegar a estas a tarefa exclusiva de “cuidar da Língua Portuguesa” ou de defender uma educação de qualidade ou as mais diversas manifestações culturais desse país tão plural e de tamanhas riquezas. Principalmente nos últimos 20 anos, cresceu muito o número de Academias de Letras Municipais, entidades que ostentam total legitimidade, pois, segundo o artigo primeiro da nossa Carta Magna, a República Federativa do Brasil é constituída pela União, pelos Estados Membros e o Distrito Federal e pelos Municípios. Mas existem outras Casas de Letras também muito importantes, destacando-se no âmbito Nacional a Academia de Letras do Brasil, fundada em 2001.

Em Santa Catarina, destacamos três instituições da maior importância no fomento à cultura e a literatura, quais sejam: a Academia de Letras do Brasil – Santa Catarina, criada em 2008 e presidida pelo destacado escritor Miguel João Simão; a Academia Catarinense de Letras Jurídicas, idealizada e criada em 2013, sendo presidida desde a sua fundação pelo brilhante escritor Doutor Cesar Luiz Pasold; e a Federação das Academias de Letras e Artes de Santa Catarina, criada em 2017 pelo advogado e escritor Adauto Beckhäuser.

Não se pode esquecer, ainda, da importância de diversas Academias de Letras Mirins e Infanto-Juvenis, criadas em Santa Catarina nos últimos tempos, principalmente pelo trabalho que desenvolvem no ambiente escolar.  

Com todas essas instituições a serviço da Língua Portuguesa, da cultura e da educação em nosso país, sem custo para o erário público, não seria de bom alvitre que os governos constituídos ao menos promovessem o sincronismo das ações governamentais com as diversas atividades desenvolvidas por essas entidades? Nesse sentido destacamos duas belas ações desenvolvidas pela Academia de Letras de Biguaçu. A primeira em 2012, com o desenvolvimento de um Programa de Incentivo a Leitura e uma Olimpíada Cultural e a segunda em 2017, com um Concurso Literário que culminou com a criação da Academia de Letras Mirim, ações realizadas com o apoio das escolas do Município.  

 Com essa diversidade de ideias e iniciativas em movimento, há também necessidade de se adotar mecanismos de controle das atividades desenvolvidas por essas instituições para não se deixar banalizar a arte da escrita. Com o propósito de mostrar trabalho ou de satisfazer vaidades, temos observado algumas ações ou publicações muito abaixo do nível aceitável. Ao mesmo tempo, devemos estimular ao máximo o surgimento de novos escritores.  São raros os abnegados que conseguem romper as barreiras das dificuldades e, muitas vezes por conta própria, iniciam uma carreira como escritor.

Em busca da proteção da tão judiada língua portuguesa, precisamos travar uma verdadeira Cruzada Nacional pela constante melhoria do ensino, por mais apoio à produção cultural de qualidade e pela democratização dos benefícios da chamada Lei Rouanet, pulverizando os investimentos de forma criteriosa, sem privilégios para alguns em detrimento de todos os demais. Não se viu até agora nos governos brasileiros compromisso efetivo com a educação. Não se tem buscado racionalizar os recursos para se alcançar melhores resultados. Está mais do que na hora de fazermos a revolução educacional no Brasil.

A realidade é que a arte da escrita tem ficado para segundo plano no Brasil. A educação tem que ser prioridade em qualquer governo. Não são valorizadas as nossas valiosíssimas riquezas culturais. Nada mais urgente no Brasil do que a atenção total à educação. Incentivar a leitura dentro e fora das escolas deve ser uma obsessão nacional. Não se tem levado a sério a célebre frase de Monteiro Lobato, que diz: “um país se faz com homens e livros”. A língua de Camões, apesar do grande esforço de muitos abnegados, nunca esteve tão judiada. Enquanto é possível notar as instituições literárias empenhadas para “cuidar”, efetivamente, da Língua portuguesa e estimular a publicação de boas obras, as grandes editoras investem em produções artificiais, em biografias de figurões ou na tradução de sucessos de vendas consagrados pela mídia.

Que os novos governantes consigam enxergar e compreender o pulsar das ruas e se disponham a dar respostas efetivas à Sociedade. Que saibam aproveitar o potencial e a disposição para o trabalho das instituições literárias e culturais existentes em todo o território nacional. A revolução silenciosa da educação depende do impulso inicial do Poder Público.

As instituições literárias e culturais querem apenas contribuir, mas para tanto precisam do estímulo que os governos podem prestar sem precisar dispor de verbas orçamentárias adicionais. Queremos, inicialmente, apenas sincronizar as ações governamentais com as boas iniciativas já testadas e aprovadas pelas instituições literárias na busca de melhores resultados.”

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Última atualização em 19 de Janeiro de 2019.
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