RACHEL DE QUEIROZ RELATA A SÚPLICA DE UM POVO EM TOTAL DEGRADAÇÃO NO CEARÁ DE 1915.

março 16, 2019 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO LEUDOO nosso Colaborador Permanente Afonso Leudo de Oliveira CARVALHO (Licenciado em Matemática pela UNIASSELVI, Especialista em Metodologias do Ensino de Matemática, Autor do Artigo Cientifico na Revista Percursos nº 10 da UDESC, com o título: “Ritmo, Poesia e Matemática”) desta vez nos brinda com o precioso resgate de um dos momentos de maior brilho  de RACHEL DE QUEIROZ no ciclo nordestino . Leia o inteiro teor a seguir:

“O Quinze foi o primeiro livro da escritora Rachel de Queiroz. Publicado em 1930, ele narra a seca histórica de 1915 pelo olhar de uma professora que mora em Fortaleza e que, em suas férias, visita a fazenda da família. O romance faz parte do ciclo nordestino com algumas características do neorrealismo. A grande seca de 1915 levou fome e miséria para o interior do Ceará e uma migração em massa. Milhares de sertanejos deixaram o campo e foram em direção à capital Fortaleza. Em resposta à crise, o governo instalou campos de concentração para abrigar os refugiados. O cenário nos campos de concentração era de extrema miséria. Os refugiados da seca ficavam presos, cercados pelo exército e recebendo algumas doações de comida e medicamentos.

Rachel de Queiroz aborda fortemente a situação do Alagadiço, o maior campo de concentração que ficava nos arredores de Fortaleza. Capital Estadual. A seca também é relatada no interior do estado. A narrativa é dividida entre o campo e a cidade, tendo a seca como pano de fundo e elemento de ligação entre as duas realidades. No interior do Ceará, Cariri e agreste.  Prevalece a luta valente das pessoas contra a seca, a persistência do homem e o seu trabalho contra as situações adversas impostas pela natureza. 

O romance possui dois polos narrativos diferentes. Um, conta a história do relacionamento de Vicente, um proprietário de terra que luta contra a seca, e a sua prima Conceição, uma professora progressista que mora em Fortaleza. O outro polo narra a trajetória do vaqueiro Chico Bento e a sua família, que perdem o sustento na terra e partem para a capital do Ceará. Em ambos os polos, os confrontos básicos são entre o campo e a cidade e entre a natureza e o homem. 

Um dos núcleos de O Quinze é a relação entre Conceição e Vicente. Conceição é uma professora de 22 anos, que mora em Fortaleza, não pensa em casamento, e suas leituras incluem livros feministas e socialistas. Já Vicente, é um proprietário de terra, que trabalha no campo, fazendo um pouco de tudo na fazenda da sua família. Conceição visita a propriedade da sua família nas suas férias e convive um pouco com Vicente, que é seu primo.

No relacionamento dos dois existe um flerte constante, mas também uma tensão, que advém de visões diferentes sobre o mundo. Conceição representa a cidade e o progressismo, principalmente nas ideias, ela é uma mulher independente e culta. Vicente é um homem do campo, mesmo sendo proprietário da terra, ele se dedica ao trabalho com esforço. Por conta do seu irmão, que estudou na cidade e se tornou pedante, ele tem uma grande desconfiança dos moradores da cidade. Essa desconfiança se reflete no seu relacionamento com Conceição. Ele entende que algumas atitudes de sua prima são uma espécie de esnobismo, que ele responde com indiferença. As diferenças entre os dois acabam tornando o relacionamento amoroso impossível de acontecer.

A narrativa de Chico Bento é o retrato do retirante. Ele era vaqueiro em uma fazenda, mas perdeu seu trabalho com a seca. Sem alternativas, ele é obrigado a emigrar para a cidade. O vaqueiro e sua família tentam conseguir ajuda do governo para ir a Fortaleza, mas não conseguem o bilhete do trem e têm que fazer o percurso a pé. O longo caminho até Fortaleza é a luta do homem contra a natureza. A aridez, o sol forte e a fome são ameaças constantes à família do vaqueiro. A narrativa foca nas perdas que a família sofre ao longo do percurso e no retrato da miséria de outros retirantes que eles encontram pelo caminho. Já em Fortaleza, Chico Bento e a sua família são instalados no campo de concentração do Alagadiço. Quando o interior já não oferece mais a subsistência, a cidade surge como a única solução, mesmo que seja uma vida na miséria. A situação é mais complicada pois a fome e a morte são presentes no campo de concentração.

Na obra de Rachel de Queiroz, a prosa regionalista nordestina e o neorrealismo possuem profundas ligações. Seu estilo de escrita, quase cronista, serve de base para uma espécie de denúncia da situação social do Ceará. Isto se torna muito claro nas descrições sobre as condições desumanas vividas dentro do campo de concentração em Fortaleza.

O neorrealismo foi muito influenciado pela prosa russa, pelo marxismo e pelas teorias freudianas, além de resgatar alguns preceitos do naturalismo e do realismo. O interesse na situação social é marcante em Rachel de Queiroz, que usa a seca como ponto de partida para mostrar o sistema precário de vida no Nordeste. A busca pela sobrevivência de Chico Bento e de sua família o aproximam da condição dos animais. O ser humano é reduzido aos instintos mais primordiais. É por meio dessa aproximação que a escritora consegue fazer uma crítica social pertinente.

A grande diferença entre a prosa naturalista e a neorrealista é que esta aponta, de certa forma, para uma solução dos problemas sociais que são expostos na obra. Em Rachel de Queiroz, as propostas marxistas são colocadas de forma ainda tímida e são mais explícitas pelas ações e pela formação da personagem Conceição. Chico Bento vivia com sua esposa Cordulina e seus três filhos na fazenda de Dona Maroca, em Quixadá. Ele era vaqueiro e o sustento vinha da terra. No entanto, com o problema da seca que cada vez mais assolava a região onde viviam, ele e sua família são obrigados a migrar para a capital do Ceará, Fortaleza. Desempregado e em busca de condições mais dignas, ele e sua família vão a pé de Quixadá a Fortaleza, pois não tinham o dinheiro da passagem. Grande parte da obra relata as dificuldades, desde a fome e a sede, que passaram durante o trajeto. Numa das passagens, ele e sua família encontram outro grupo de retirantes saciando a fome com a carcaça de um gado.”

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Este Blog sucede ao www.advocaciapasold.com.br que foi visitado 109983.

Esta página já foi visitada 481047 vezes.

Site disponibilizado pela primeira vez em 18 de novembro de 2015.
Última atualização em 22 de Maio de 2019.
Responsável Técnico: Leonardo Latrônico Prates
Responsável Geral: Prof. Dr. Cesar Luiz Pasold