CLARICE LISPECTOR: UMA MESMA MÓ PARA GRÃOS LITERÁRIOS DISTINTOS

abril 17, 2019 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO LEUDOO nosso Colaborador Permanente Afonso Leudo de Oliveira CARVALHO (Licenciado em Matemática pela UNIASSELVI, Especialista em Metodologias do Ensino de Matemática, Autor do Artigo Cientifico na Revista Percursos nº 10 da UDESC, com o título: “Ritmo, Poesia e Matemática”) traz para nossa “degustação literária”  um dos mais impactantes momentos de CLARICE LISPECTOR . Leia o inteiro teor a seguir:

“Tratando-se de uma das mais célebres escritoras brasileiras de todos os tempos e uma das autoras de maior sucesso na internet ainda hoje, mesmo depois de décadas da sua morte, Clarice Lispector na verdade, nasceu na Ucrânia em 1920. Enquanto brasileira, declarava-se pernambucana, já que morou no estado desde os 2 anos de idade. A autora morreu em 1977 no Rio de Janeiro. Suas principais obras foram: “Perto do Coração Selvagem”, “Laços de Família”; “Felicidade Clandestina”, “ A Hora Da Estrela”, “A Paixão segundo G.H.” entre diversas outras. Todas são surpreendentes e fascinantes. Clarice Lispector chamou a atenção em sua época, especialmente, devido à sua peculiaridade. Seus textos, ensaios, peças teatrais, crônicas e contos falavam de fatos simples do cotidiano, mas com uma visão muito diferenciada de uma mulher que nunca teve medo de “sentir demais” e que discorria sobre temas como amor, traição, amizade e liberdade, entre outros, com uma sutileza difícil de se encontrar.

No livro A Paixão Segundo G.H.  Clarice Lispector nos leva a uma viagem intima com uma sugestão ou, surpresa, que estava perto de ser superada. Um acontecimento a apanhou em meio a sua rotina civilizada, entre os filhos, afazeres domésticos e contas a pagar, e a lançou para fora do humano, deixando-a na borda do coração selvagem da vida. A história se organiza em capítulos sequenciados – cada um começa com a mesma frase que serve de fechamento ao anterior. – A interrupção, assim, é elemento de continuidade, numa representação simbólica do que é a experiência de A Paixão Segundo G.H. Trata-se de um longo monólogo em primeira pessoa – pela primeira vez Clarice escreveria assim – que se dá pelo fluxo de consciência ininterrupto. Sem nome, G.H. identifica-se com todos os seres em sua busca pessoal. Este é um livro atemporal, que poderá sempre dar algo novo ao leitor.

O que parece um monólogo é na verdade um diálogo entre a autora e seu leitor, que estará sempre disposto a reler e retirar novas ideias, inspirações e significados desse texto instigante do qual, a protagonista encontra a verdadeira razão de estar no mundo. “Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. (P. 11).

Clarice Lispector, publicou A Paixão Segundo G.H. em 1964 e, assim como em suas outras obras, os fluxos de consciência permeiam todo o livro. É uma criação angustiante e inquietante. Clarice Lispector transmite ao leitor as preocupações emocionais da personagem G.H, mulher bem sucedida profissionalmente, porém não conhece sua identidade, portanto, busca o conhecimento interior, fato que a faz identificar-se com todos. O enredo aparentemente tolo – a demissão da empregada doméstica faz com que a patroa faça uma faxina no quarto da funcionária, onde encontra uma barata – se torna um momento de profunda reflexão existencial. Ao ver e encarar a barata, ao esmaga-la e ao comê-la, a protagonista encontra a verdadeira razão de estar no mundo. Com o intuito de retomar seus instintos primitivos, G.H. deve enfrentar a experiência de provar o gosto do inseto. O provar simboliza uma reviravolta em seu mundo alienado, imune e condicionado. Após o ocorrido é que a personagem se dá conta do seu verdadeiro estar no mundo. É tanto que depois ela tem dificuldades em narrar a sua impotência de descrever os fatos.

A Paixão Segundo G.H. é uma obra que ecoa existencialismo, portanto, é considerada como uma luz sobre o entendimento da condição humana. Em sua grande maioria, os romances de Clarice Lispector são de cunho existencial, um monólogo intimista sobre fatos da vida. Sabendo disso, o enredo pode não ser convidativo ao leitor que gosta de histórias com tramas, estratagemas e personagens diversos. A Paixão Segundo G.H. de certa forma, é um livro perturbador; como era Clarice, falando do tudo e do nada numa cadência peculiar.

Assim como em outras obras de Clarice, em A Paixão Segundo G.H. os fluxos de consciência permeiam o livro. Espécie de romance-enigma, fornece o lugar de sujeito à linguagem, que constrói ao redor de si um labirinto cuja saída está na essência do ser. Um paradoxo, como muitos dos que permeiam a obra da escritora: as palavras são, ao mesmo tempo, o que afasta o ser de sua essência, mas, ao mesmo tempo, constitui a chave para atingi-la. É o exercício da linguagem como instrumento possível de se tocar o intocável, de se atingir o segredo: desenterrar o melhor e o pior de nossa condição humana, que já não é nem mais humana. Assim, a literatura de Clarice assume uma estatura filosófica, aproximando-se, na visão de alguns, do existencialismo de Jean-Paul Sartre. Sem nome, G.H. – podemos definir “G.H.” como Gênero Humano –  Como uma pérola rara. Entre suas vidas possíveis está a mística, aberta a múltiplos temas, como a linguagem e a arte que se fundem na busca espiritual de seu ser. No romance, a linguagem é utilizada por Clarice Lispector com o objetivo de transmitir sua interpretação do mundo.

Ela relata a descoberta do cotidiano e, ao mesmo tempo, questiona o que é o ser. E, depende do leitor para definição do seu significado. Clarice Lispector faz o uso de metáforas durante todo o livro, conferindo arbitrariedade ao texto. Dessa forma, a obra pode ser interpretada de várias formas diferentes e depende do leitor para definição do seu significado. Segundo Olga de Sá, que estuda a obra clariceana, a escritura da autora “deve ser entendida com o corpo, pois com ele escreve”. Um convite a degustação escabrosa da realidade em seu mais profundo sentido.

A Paixão Segundo G. H. faz a prospecção “do mundo exterior, como quem macera a afetividade e afia a atenção, para colher amostras, numa tentativa de absorver o mundo pelo ‘eu’ angustiado; arguto.” A partir desse romance não há mais os recursos habituais do romance psicológico. Não há etapas de um drama, cada personagem envolve todo o drama.

Sendo assim, desejo ótima degustação literária.”

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Última atualização em 17 de Agosto de 2019.
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