A ASCENSÃO DO FASCISMO MODERNO: A SINDROME DE WEIMAR NA SOCIEDADE ATUAL.

agosto 20, 2019 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO nosso Colaborador Permanente   Prof. Dr. Giancarlo MOSER escreveu   texto sobre “A Síndrome de Weimar na Sociedade Atual”  diante da perspectiva da ascensão do Fascismo Moderno. Leitura para reflexão e debates responsáveis! 

Segue o texto em inteiro teor:

“No outono de 1918, o Reich alemão é o grande perdedor da I Guerra Mundial. As restrições impostas na política externa levaram o país a uma profunda revolução interior: a Alemanha está experimentando uma primavera democrática. Mas desde o começo a jovem república enfrenta diversos problemas internos: a derrota na guerra e as condições da paz de Versalhes provam ser uma hipoteca pesada. Correntes de esquerda e de direita lutam pelo poder, com grupos paramilitares que se enfrentam nas ruas das cidades, principalmente os Freikorps (ex-soldados da I Guerra sem destino e emprego) os grupos de operários de Esquerda.

Contudo, ao longo dos meses após a guerra, as crises econômicas, a inflação e o desemprego vão abalando a confiança da população na jovem democracia e eleições livres são realizadas em 19 de janeiro de 1919. Pela primeira vez, as mulheres também são admitidas nas eleições. A participação é muito alta em 83%.

Os alemães elegem uma nova Assembléia Nacional e ela se reúne na cidade de Weimar, porque Berlim teme rebeliões. Weimar dará à jovem República Alemã uma constituição e seu nome. A Alemanha será agora uma Democracia parlamentar. Esta república acreditava que a Democracia moderna, que substituiria o Reich após a experiência terrível da Guerra, exigia a representação de todos os cidadãos, e por isso assegurou um sistema de estrita proporcionalidade em seu regime eleitoral.

O que se seguiu foi uma lenta agonia de anos deste sistema parlamentar, que até logrou êxito por algum período, mas as crises sucessivas e o Crash de 1929 desestabilizaram o processo e abriu caminho para o avanço do NSDAP (Partido Nazista) como um movimento de massas altamente organizado. Finalmente – após os estágios intermediários autoritários dos Gabinetes de Von Papen e Schleicher – veio a nomeação de Hitler como chanceler em 30 de janeiro de 1933. Na filosofia de governo Nazista (Volksgemeinschaft), não haveria espaço para outras formas de ideologia política, exceto o NSDAP! Hitler sempre proclamou isso e essa foi promessa que ele fez logo após a sua “tomada de poder” é verdadeira.

No momento atual, analistas políticos começam a fazer analogias da situação política de agora com a República de Weimar na Alemanha, ante-sala da Segunda Guerra mundial, pois os sintomas se assemelham, principalmente: o pavor às lutas sociais, o colapso econômico, o desemprego geral e uma tendência ao fascismo e autoritarismo de Direita. Hoje, Weimar é visto e entendido como um prelúdio ao Nazismo, vítima de sua ingenuidade, com um punhado de boas intenções que acabou sendo devorado pelo poder debilitante de suas próprias convicções

Então, quando falamos sobre a Síndrome de Weimar nestes dias, nos referimos às tensões que poderiam colocar em perigo a estabilidade da democracia liberal, tensões que são principalmente causadas pelo ressurgimento do populismo e pela possibilidade de um autoritarismo populista.

O problema de Weimar, e isto sim se assemelha ainda mais aos dias atuais, é que pouco a pouco na Alemanha começou-se a diluir a confiança dos diferentes Governos na capacidade de alcançar um mínimo de governabilidade capaz de resolver os problemas socioeconômicos. Além do tamanho dos problemas sociais e econômicos que iam se acumulando, as desajeitadas interferências presidenciais de Hindenburg, a extrema fragmentação do sistema de partidos e as contínuas mobilizações de massa de diferentes tendências provocaram uma desestabilização permanente que afetou a própria legitimidade da democracia. E, como alguns dos principais teóricos da época advertiram, isso obrigava a combater o multiforme os sentimentos autoritários com a reivindicação dos valores republicanos como base normativa imprescindível.

Parte do que está atualmente sendo discutido sob o título de desencantamento com políticos e sistema partidário lembra as condições de Weimar: o poder de integração dos partidos populares está diminuindo; o número de não eleitores está aumentando. A perda de reputação da “classe política” é inconfundível, e é reforçada na população por cada novo caso de corrupção e ganância. No entanto, em comparação com Weimar, há uma diferença fundamental: a democracia parlamentar é inquestionavelmente aceita hoje pela maioria da população! Mesmo os conservadores e as associações de grandes empresas baseiam-se na Constituição.

Neste sentido, devemos envidar esforços constantes para discutirmos a nossa estrutura política e de governo, mesmo que a crítica partidária misture ressentimentos antidemocráticos aqui e ali. Pelo contrário, quanto mais ampla e abertamente for conduzido o debate, mais cedo o presente “desencantamento partidário” poderá ser superado. Uma experiência de Weimar não deve ser esquecida: a rapidez com que o desacordo entre as diversas vertentes e posições políticas pode se transformar em uma crise do sistema parlamentar se não houver um consenso democrático e republicano, levando ao autoritarismo e, quiçá, ao um novo Fascismo.

Referências:

ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática; Brasília: Ed. UnB, 1988.

BERTONHA, João Fábio. Sobre fascismos e ditaduras: a herança fascista na formatação dos regimes militares do Brasil, Argentina e Chile. Revista de História Comparada. V. 9, n. 1, p. 203-231, Rio de Janeiro, 2015.

BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais. A longa duração. In: Escritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1992.

PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

STERNHELL, Zeev. Nascimento da ideologia fascista. Lisboa: Bertrand Editora, 1995.

TRINDADE, Hélgio. Integralismo, o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1974.”

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