SOBRE SPINOZA: REFLEXÕES PARA O MUNDO CONTEMPORÂNEO

dezembro 9, 2019 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO nosso Colaborador Permanente   Prof. Dr. Giancarlo MOSER (Pós-Doutor pela FGV/RJ , Doutorado em Ciências Sociais , Doutorado em Patrimônio Cultural (PPGTH/UNIVALI), Graduação em História pela UFSC , Licenciatura em Sociologia),escreveu objetiva crônica sobre o extraordinário filósofo Spinoza estimulando-nos a reflexões. Eis o texto integral:

“Imagine alguém lhe dizer que tudo no Universo é composto da mesma coisa, que toda a diferença e a mudança que vemos no mundo são apenas ilusões. Não apenas tudo é composto de uma coisa, mas essa coisa é Deus. Deus está em tudo que você pode pensar.

Foi assim que Baruch Spinoza viu o universo. É uma idéia chocante para muitos, especialmente quem imagina Deus como um grande patriarca nos vigiando do céu. Mas é a maneira com que Spinoza pensou na melhor forma de explicar Deus.

Spinoza é um dos três grandes “racionalistas” europeus do século XVII, com Leibniz e Descartes. A influência de Descartes sobre Spinoza foi tão profunda que muitos simplesmente viam-no como seu discípulo. Mas Spinoza avançou sobre as idéias de Descartes para criar seu próprio sistema filosófico, que constrói uma imagem da realidade ao nosso redor e como devemos viver nela. O sistema era radicalmente diferente da idéia de realidade de Descartes, mas a propôs da mesma maneira racional.

O racionalismo sustenta que muitas verdades são auto-evidentes e não dependem dos sentidos a serem conhecidos por nós. Com efeito, o ser humano pode saber muitas coisas independentemente da experiência, ou antes, dela.

Isso é chamado de conhecimento “a priori”. Um exemplo de uma verdade ‘a priori’ seria que os ângulos de um triângulo somam 180°, já que essa verdade é evidente pela própria definição de triângulo. Você pode entender isso teoricamente antes de ver um triângulo como um objeto real. Mas, não era apenas em lógica que os racionalistas estavam interessados. Spinoza era um pensador profundamente religioso. Para Spinoza, liberdade deriva do conhecimento. Ele levou a idéia do racionalismo ao máximo, argumentando que o conhecimento suficiente de Deus é possível puramente através do raciocínio.

Na sua obra ‘Ética’ encontramos a explicação abrangente de Spinoza para Deus, sendo estruturada de uma maneira que imita a geometria Euclidiana. Ela começa com definições de termos, depois axiomas (verdades auto-evidentes) e termina com teoremas.

O paralelo traçado entre sua própria tese sobre a realidade e Deus e Euclides era mostrar que compreender nosso mundo e nosso lugar nele era uma questão de Razão. Spinoza acreditava que Deus podia ser entendido pela razão da mesma maneira evidente que os ângulos de um triângulo somam 180°. As definições, axiomas e teoremas são blocos de construção que demonstram verdades. De acordo com seu ethos racionalista, essas propostas são necessariamente verdadeiras, segundo Spinoza, em virtude da razão, não de observação.

Ao desenvolver essas idéias, Spinoza enfrentou o paradoxo dos limites de Deus. Se Deus fosse infinito e perfeito, como Ele poderia se destacar da criação? Para ele, o Deus da Torá Judaica é um Deus com limites, tanto quanto imperfeito. Em sua busca por Deus, Spinoza redescobriu a idéia antiga que revolucionou a filosofia: a “Imanência”.

A Imanência é a idéia de que o divino se manifesta no mundo material. Alguns credos e filosofias europeus e asiáticos antigos também se basearam na imanência. Mas a idéia de imanência divina desapareceu quando a cristandade surgiu. O entendimento judaico-cristão de Deus é como um ser ‘transcendente’, significando que Deus está separado, acima e fora do universo e da criação. Os textos judaico-cristãos afirmam claramente que Deus criou o universo a partir do nada; Deus é a primeira causa de todas as causas no universo. A palavra “transcendente”, quando usada na filosofia, geralmente significa “além do nosso entendimento”, e Deus é freqüentemente considerado o exemplo final do que está além do nosso entendimento.

Durante a Idade Média, muitos filósofos procuraram provar a existência de Deus. Uma dessas provas é conhecida como “Argumento Ontológico”. De uma forma muito básica, o Argumento funciona assim: um ser perfeito deve existir, se não existir, não será perfeito. Deus é perfeito e, portanto, deve existir.

Mas Spinoza argumentou além de provar a existência de Deus para realmente refletir sobre a ‘natureza de Deus’. Spinoza se perguntou: “se Deus era infinitamente sábio, por que Ele tomaria uma decisão? Se Deus era infinito, como Ele não poderia estar em tudo? Certamente, se Deus não está no mundo, então Deus tem limites”. Spinoza argumentou que: “se Deus é perfeito, Deus não deve ter limites. Se Deus é ilimitado, Deus deve ser imanente”. Não era uma idéia nova na época em que Spinoza escrevia, mas havia sido negligenciada por séculos e considerada blasfêmia para cristãos e judeus. Recentemente, essas idéias foram reavaliadas pelo filósofo Gilles Deleuze. Para Deleuze, a transcendência sempre foi um compromisso tentador para os filósofos, uma maneira fácil de ignorar uma explicação ontológica total do universo. O projeto de Deleuze tornou a imanência secular, substituindo “Deus ou Natureza” de Spinoza com sua própria idéia de “Ser”.

O filósofo francês acreditava que todas as teorias transcendentais – de um Deus transcendente religioso a um idealismo transcendente secular – eram dogmas. A ênfase igual e paralela de Spinoza na extensão e no pensamento – o corpo e a mente – fornece uma explicação de tudo sem recorrer a algo que seja inexplicável ou além da experiência.

A teoria do ser de Spinoza era “unívoca” ou singular. A substância singular através da qual tudo é apenas uma modulação e percebida através de atributos é tudo o que existe, é experimentada e compreensível para nós. Para Deleuze, isso é revolucionário, pois, com o modo de pensar de Spinoza sobre o mundo, não precisamos mais recorrer a algo que é incognoscível.

As implicações para a ética, a sociedade e a política são enormes. Mesmo se descontarmos ou desacreditarmos o sistema filosófico de Spinoza, sua maneira de pensar abriu novas fronteiras na filosofia.

Referências:

CHAUÍ, M. de S. Espinosa: uma filosofia da liberdade. Ed. Moderna: São Paulo, 1995.

DESCARTES, R. Princípios da Filosofia. Lisboa: Edições 70, 1997.

GLEIZER, M. Espinosa e a afetividade humana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

LÉVY, L. O autômato espiritual – a subjetividade moderna segundo a Ética de Espinosa. Porto Alegre: LPM, 1998.

SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2007.”

 

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