NIETZSCHE para nossos dias de relativismo moral e ético: o conceito do Übermensch

fevereiro 11, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO nosso Colaborador Permanente   Prof. Dr. Giancarlo MOSER (Pós-Doutor pela FGV/RJ , Doutorado em Ciências Sociais , Doutorado em Patrimônio Cultural (PPGTH/UNIVALI), Graduação em História pela UFSC , Licenciatura em Sociologia),escreveu  crônica sobre o extraordinário e  polêmico Friedrich NIETZSCHE. Eis o texto integral que merece leitura atenta:

“A filosofia e o pensamento de Nietzsche são bastante complexos e o que talvez seja mais mal compreendido no seu trabalho é a sua proposição conceitual do Übermensch. Neste artigo, examinamos esse conceito e como ele se apresenta no pensamento e proposta de Nietzsche.

Neste sentido, é importante contextualizar o momento em que foi escrita sua principal obra: em 1882, Friedrich Nietzsche era um homem que vivia uma fase extremamente difícil de sua vida, padecendo com uma série de problemas de saúde e síndrome do estresse pós-traumático por ter servido na Guerra Franco-Prussiana (durante a qual ele também havia contraído difteria e disenteria). A gota d’água foi quando a mulher que ele amava profundamente, o abandonou. Ele foi um jovem extraordinariamente talentoso e havia feito um doutorado quando ainda era adolescente, sendo logo destacado com um cargo de professor universitário aos 24 anos.

No final da década de 1860, o filósofo também se destacou como cavaleiro e soldado. Ele estava destinado a ser um oficial no exército prussiano, mas um acidente de equitação e sua visão fraca (o que o tornou quase cego) terminaram com sua carreira de soldado. Ele voltou então para a Universidade, onde se destacou brilhantemente.

Nietzsche era um escritor talentoso e desenvolveu uma visão complexa sobre conceitos como: Deus, Ateísmo, Moral, Ética etc. O filósofo tinha uma profunda crença nas possibilidades morais dos seres humanos. Ele procurou escrever uma obra filosófica que serviria de guia para aqueles que compartilhavam sua descrença pelos valores tradicionais e considerados imutáveis até então. Foi neste período que ele começou a escrever um dos livros mais extraordinários do cânone filosófico: “Assim falou Zarathustra” (Also sprach Zarathustra).

O livro é um romance filosófico que narra a descida de um sábio eremita — Zarathustra — de sua habitação em uma montanha para uma terra fictícia onde ele dispensa sabedoria em uma série de episódios temáticos.

O lendário homônimo de Zarathustra é o fundador da antiga religião persa do Zoroastrismo. O profeta é creditado como sendo o primeiro a elaborar a moralidade binária do “bem” e do “mal” que entranhou-se nas religiões abraâmicas e que é considerada em todo o mundo atualmente.

Este trabalho filosófico tratava de muitas das ideias de Nietzsche sobre a relação entre moralidade e humanidade, e no meio destes conceitos era onde estava o caráter de um indivíduo que superaria as vicissitudes e crenças milenares humanas: chamado por Nietzche de “Übermensch”. Esta figura é muitas vezes chamada de ‘super-homem’, embora uma tradução mais apropriada é: “Além-homem”. O Übermensch pode não ser exatamente um super-herói, mas na filosofia de Nietzsche, este homem superior estava apto a superar as mazelas humanas.

Nietzsche foi um dos primeiros grandes defensores de uma filosofia que chamamos de Niilismo. Os niilistas acreditavam que não havia verdades morais. Nietzsche, em particular, defendeu uma visão fortemente atéia desta filosofia; a Igreja Cristã era, portanto, uma instituição que criou moralidade a fim de subjugar as massas. A crença popular em uma moralidade única e universal que dá propósito e direção à humanidade não era nada mais do que uma ilusão.

Nesta visão de mundo, o Übermensch é a pessoa que é capaz de romper com a ilusão. Basicamente, o Übermensch reconhece que a definição de moralidade da sociedade é tendenciosa e socialmente construída. Então, isso significa que o Übermensch é amoral, ou não tem código moral? Evidentemente que não! Em vez de aceitar a moralidade ditada por instituições como a Igreja, o Übermensch cria sua própria moralidade, com base em suas próprias experiências que estão fundamentadas neste mundo físico secular (em oposição a alguma vida após a morte). É essa capacidade de ver além da ilusão, que cria um Übermensch e faz dessa pessoa um ser superior.

Viver por seu próprio código moral dá ao Übermensch um profundo senso de moralidade e um propósito firme. Nesta posição iluminada, o Übermensch se dedica unicamente ao avanço e aperfeiçoamento da humanidade. Na verdade, como o Übermensch está ciente do sofrimento da existência, ele está mesmo disposto a sacrificar a si mesmo para ajudar a melhorar a humanidade. Com o tempo, ele ajudará outras pessoas a romper os laços da moralidade institucional e, assim, se tornar uma figura que impacta a história para sempre. Na verdade, Nietzsche definiu os humanos como sendo a ligação entre animais e o Übermensch. A humanidade foi pega em uma luta constante entre instintos animalescos e uma tendência para essa existência mais perfeita.

Devemos lembrar que o Übermensch ainda não apareceu.

Este é o elemento profético da filosofia de Nietzsche: o Übermensch um dia aparecerá para salvar o mundo, mas ainda não é uma pessoa que vive ou viveu entre nós. É um ideal, algo para se esforçar, não um modelo existente para imitar.”

“Referências:

MACHADO, R. Nietzsche e a Verdade. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

MELO SOBRINHO, N. C. A Pedagogia de Nietzsche. In: NIETZSCHE, F. Escritos sobre educação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003, p.7-39.

NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1987.

PILETTI, C. Filosofia da Educação. São Paulo: Ed. Ática, 1997.”

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