O IRREQUIETO E SONHADOR ARIANO SUASSUNA

março 27, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO LEUDOO  Colaborador Permanente Afonso Leudo de Oliveira CARVALHO (Licenciado em Matemática pela UNIASSELVI, Especialista em Metodologias do Ensino de Matemática, Autor do Artigo “Ritmo, Poesia e Matemática” publicado na Revista Percursos nº 10 da UDESC) participa de nosso Blog com o interessante texto informativo e analítico, sobre o extraordinário ARIANO SUASSUNA. Segue o inteiro teor:

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, na cidade de João Pessoa, Paraíba. Nasceu no seio de uma família abastada, visto que seu pai, João Suassuna, era presidente do Estado, cargo que mais tarde passa a ser de governador.

Com o assassinato de seu pai em meio a Revolução de 30, a família muda-se para Taperoá e mais tarde para Campina Grande, ambas cidades na Paraíba. Na adolescência foi viver no Recife, capital de Pernambuco. Ali, foi estudante do curso de Direito, na Universidade Federal de Pernambuco formando-se em 1950.

Durante seus anos na graduação, escreve sua primeira peça de teatro “Uma Mulher Vestida de Sol” e com ela recebeu o prêmio Nicolau Carlos Magno.

Ao lado de Hermilo Barbosa Filho funda o “Teatro do Estudante de Pernambuco”. Essa criação foi a chave para escrever mais peças, as quais foram encenadas no local. Chegou a trabalhar na área de advocacia, no entanto, não deixou de lado sua paixão pela escrita. Assim, continuou escrevendo peças e romances.

Suassuna como Professor

De volta ao Recife começou a lecionar “Estética” na Universidade Federal de Pernambuco, a partir de 1956. Ainda nessa profissão continuou atuando na dramaturgia e três anos mais tarde funda o “Teatro Popular do Nordeste”, também com o apoio de Hermilo Barbosa Filho. Permaneceu atuando como professor durante anos e em 1994 aposentou-se pela Universidade Federal de Pernambuco.

Suassuna e o Movimento Armorial

Muitas de suas obras estiveram voltadas para a literatura popular. Ligado a esses temas, Suassuna foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura, cargo que ocupou de 1967 a 1973. Paralelo a isso, fez parte do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco entre os anos de 1968 e 1972.

De 1969 a 1974 atuou como diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE. A partir de 1970, encabeçou o “Movimento Armorial”, com foco nas expressões populares. A ideia central era trazer à tona o folclore e as artes populares e conceder um valor erudito aos temas. Esse movimento inclui diversas manifestações artísticas como a música, a dança, as artes plásticas, a literatura, o teatro, o cinema, etc. Segundo ele:

Sou a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando as peculiaridades locais e nacionais. ”

Esse movimento inclui diversas manifestações artísticas como a música, a dança, as artes plásticas, a literatura, o teatro, o cinema, etc. Segundo ele: “Sou a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando as peculiaridades locais e nacionais. ”

Suassuna recebeu o Prêmio Nacional de Ficção em 1973 e o prêmio da Fundação Conrado Wessel (FCW) em 2008. Pelo Auto da Compadecida ganhou medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.

Obras

Suassuna escreveu ensaios, romances, dramaturgias e poemas. A maior parte de sua obra está relacionada com os elementos nordestinos. Assim, Suassuna explora a fala regional e parte do folclore brasileiro. O escritor possui uma vasta obra das quais merecem destaque:

  • Uma Mulher Vestida de Sol (1947)

  • Cantam as Harpas de Sião ou O Desertor de Princesa (1948)

  • Os Homens de Barro (1949)

  • Auto de João da Cruz (1950)

  • Torturas de um Coração (1951)

  • O Castigo da Soberba (1953)

  • O Rico Avarento (1954)

  • Auto da Compadecida (1955)

  • O Casamento Suspeitoso (1957)

  • O Santo e a Porca (1957)

  • O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna (1958)

  • A Pena e a Lei (1959)

  • Farsa da Boa Preguiça (1960)

  • A Caseira e a Catarina (1961)

  • O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971)

O auto da Compadecida”

A peça retoma elementos do teatro popular, contidos nos autos medievais, e da literatura de cordel para exaltar os humildes e satirizar os poderosos e os religiosos que se preocupam apenas com questões materiais. A primeira peripécia narrativa da peça, o enterro do cachorro, pode ser encontrada em diversas obras anteriores, como no cordel “O Dinheiro”, de Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Nesse cordel, um cachorro também deixara uma soma em dinheiro no testamento com a condição de que fosse “enterrado em latim”. As duas próximas peripécias, ambas encontradas na segunda parte da peça (que pode ser dividida em três atos), apresentam um gato que supostamente “descome” dinheiro e de um instrumento musical que seria capaz de ressuscitar os mortos. Essas duas estruturas narrativas estão no romance de cordel “História do Cavalo que Defecava Dinheiro”, também de Leandro Gomes de Barros.

Na peça, porém, Suassuna substituiu o cavalo por um gato, certamente para facilitar a encenação. Esse é um exemplo de como uma necessidade prática pode influir na narrativa, obrigando o autor a transformá-la conforme as necessidades impostas pela forma de apresentação.

A apropriação da tradição, ao contrário de ser facilitada pela tematização prévia, é dificultada, pois, ao imitar, é preciso fazer jus a quem se imita, superando-o ou pelo menos igualando-se a ele em qualidade e inventividade. No texto de Leandro Gomes, o instrumento musical capaz de levantar defuntos era uma rabeca e, em Suassuna, passa a ser uma gaita, provavelmente também por causa de uma necessidade cênica.

No último ato da peça ocorre o julgamento dos personagens que foram mortos por Severino de Aracaju, e do próprio Severino, morto por uma facada de João Grilo. É impossível não pensar no “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, em que uma série de personagens é julgada por seus atos em terra e tem como juízes um anjo e um demônio. A fonte direta de Suassuna, porém, estava mais próxima. É “O Castigo da Soberba”, romance popular nordestino, de autoria anônima, no qual a compadecida aparece para salvar um grupo de condenados.

Fica patente o cunho de sátira moralizante da peça, que assume uma posição cujo foco está na base da pirâmide social, a melhor maneira de desvelar os discursos mentirosos das autoridades e integrar os homens e mulheres por meio da compaixão, a qual só os desprendidos podem desenvolver.

Nesse aspecto, a moral que se depreende da peça é muito semelhante à do cristianismo primitivo, que se baseava no preceito “amai-vos uns aos outros”.

 

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Última atualização em 14 de Agosto de 2020.
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