Discurso de Ódio e Fake News nas Redes Sociais: Uma análise sob a perspectiva da Erística Aplicada dos Sofistas até Schopenhauer.

maio 17, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO  Colaborador Permanente   Prof. Dr. Giancarlo MOSER [Pós-Doutor pela FGV/RJ , Doutorado em Ciências Sociais , Doutorado em Patrimônio Cultural (PPGTH/UNIVALI), Graduação em História pela UFSC , Licenciatura em Sociologia- Professor da UDESC], escreveu crônica sobre Ódio e Fake News nas Redes Sociais, tema relevante e atual. Merece leitura atenta!

“Argumentação, debate e discussão são as principais facetas da comunicação humana, moldando a forma como as pessoas formam, compartilham e promovem idéias, hipóteses e soluções para os problemas. A argumentação pode ser amplamente dividida em solução colaborativa de problemas ou busca de verdade, e briga sem esperança de uma resolução, em vez de recreação, catarse ou entretenimento. A rede social é uma forma crescente em que indivíduos, grupos sociais e até corporações compartilham conteúdo, idéias e informações, além de realizar discussões e debates. Os modelos atuais de argumentação muitas vezes se concentram em técnicas formais de argumentação, nas quais se espera que os participantes cumpram um rigoroso conjunto de regras ou práticas.

No entanto, na rede social não existe esse código de conduta: o comportamento anti-social, que muitas vezes decorre da argumentação, pode ter um impacto negativo nas comunidades online, afastando novos usuários e sufocando a participação.

A mesma tecnologia que permite que as mídias sociais incentivem ativistas da democracia pode ser usada por grupos de ódio que buscam engajar pessoas em suas idéias (ou a falta delas) e também permite que sites marginais, incluindo conspiracionistas, alcancem audiências muito mais amplas do que seus principais leitores. Temos que ter em mente que os modelos de negócios das plataformas online dependem da maximização dos tempos de leitura ou de visualização. Uma vez que o Facebook e plataformas similares ganham seu dinheiro permitindo que os anunciantes direcionem o público com extrema precisão, é de seu interesse permitir que as pessoas encontrem as comunidades onde passarão mais tempo. As experiências dos usuários online são mediadas por algoritmos projetados para maximizar seu engajamento, que muitas vezes inadvertidamente promovem conteúdo extremo.

Dito isto, observa-se que o discurso de ódio nos últimos tempos tomou um caminho preocupante. O anonimato e a onipresença das mídias sociais fornecem um terreno fértil para o discurso de ódio e faz com que o combate pareça uma batalha perdida. Não importa muito qual o posicionamento político do indivíduo: direita, esquerda ou neutro. O debate público no ambiente digital é eivado de xingamentos, acusações e ameaças físicas. A chave para compreender esse fenômeno está numa expressão que é desconhecida da maioria dos indivíduos e até dos estudiosos: chama-se Erística Dialética. Este processo retórico configura-se em um tipo de discurso que tem por finalidade a vitória no debate — um recurso muito utilizado pelos antigos sofistas da Grécia clássica.

A erística é quase como uma representação teatral: é uma forma de argumentação que encobre a tese ou adia a sua apresentação, uma vez que a intenção não é provar um determinado argumento, mas confundir, cansar e vencer o oponente num diálogo; não se busca a verdade, mas apenas vitória no debate e os que utilizavam a erística dialética estavam preparados para usar meios desonestos para alcançá-la. O nome deriva de Éris, a deusa da discórdia na mitologia grega. Quando o termo foi cunhado pela filosofia, os sofistas eram especialistas nessa arte argumentativa visando ao convencimento. Os sofistas eram conhecidos pela capacidade de influenciar, pela arte e pela retórica.

Estas idéias foram analisadas e discutidas pelo alemão Schopenhauer que elaborou um conjunto de 38 Estratagemas para o uso da Erística Dialética no séc. XIX. Para o autor, em um debate podemos carregar a razão objetiva, ou seja, no pensamento/idéia geral, contudo, ao usarmos palavras e exemplos errados ou inadequados podemos ser refutados. Caso nossa fala e exemplo forem vencidos, nós perdemos o debate. Pois bem, nossa fala refutada resulta na derrota dentro do debate, independente de estarmos certos ou não. O ataque ao argumento não é o ataque à idéia, assim, o ataque aos argumentos pode ser uma estratégia valiosa. O ataque aos argumentos por A leva B a defendê-los, perdendo o foco da tese ou do debate, fazendo com que A ganhe tempo para formular ataques conta a tese do oponente em si. Porém, para Schopenhauer, essa tática pode encerrar um debate de maneira muito fácil e rápida, além de dar a vitória para quem não possui a melhor tese, portanto, o seu poder de sedução é perigoso. Após estas colocações, fica claro que a vitória não depende apenas do conceito e sua elaboração, mas sim pela habilidade em defender a sua idéia e atacar a do oponente. Portanto, saber defender a tese é tão importante quanto formulá-la de solidamente.

O propósito dos discursos de ódio e das fake news nas redes sociais é exatamente isso: vencer pela mentira, pela dissimulação, pela baixaria, pela falta de lógica nos argumentos e pelos ataques pessoais e desmoralizantes ao alvo do discurso. Vivemos tempos em que a manipulação digital nos vulnerabiliza e nos prosta na busca de virtudes e clareza no trato das nossas mais amplas relações sociais e políticas.

Vale aqui reproduzir a advertência bíblica contida em Provérbios 18.2: “O insensato não tem prazer no entendimento, mas sim em fazer valer sua opinião” e em Provérbios 23.9: “Não vale a pena conversar com o insensato”.

Bibliografia:

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ter razão: 38 estratagemas. Petrópolis: Vozes de Bolso, 2017.”

 

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