PRECONCEITO

junho 7, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO RICARDO ROSANosso Colaborador Ricardo José da ROSA (Professor; Advogado; Presidente do Conselho Deliberativo do IASC, do qual é Ex-Presidente da Diretoria Executiva e Comendador; Autor da Obra intitulada O QUINTO COMENDADOR [Florianópolis: Rocha Gráfica e Editora ,2019]), trata de tema atualíssimo e sempre muito delicado, que é o Preconceito, conceituando-o, tipificando e exemplificando. Examina consequências, entre as quais, o suicídio. Merece leitura muita atenta e reflexiva ! Texto integral a seguir:

        “Escrevo para expressar minha solidariedade a todas as vítimas de preconceito. Ao falar-se em preconceito o mais comum é que se pense em preconceito de cor, sobretudo nesse momento em que a morte violenta, e cruel de George Floyd atrai a atenção em todos os continentes.

         Há, no entanto, outros tipos de preconceitos, merecedores da mesma repugnância e combate, aplicados de forma violenta ou sutil, muitas vezes no âmbito da própria família.

         Muitas vítimas não suportam tanta crueldade e cometem o suicídio, aliás, outro problema da maior seriedade e que merece ser analisado para que providências sejam adotadas a fim de reduzir o número de casos. Embora possa e, muitas vezes seja, consequência do preconceito não é objeto do presente artigo, mas me permito relembrar alguns números oficiais: no mundo acontece um suicídio levado a termo a cada 45 segundos , segundo dados da Organização Mundial da Saúde. No Brasil, são trinta e dois por dia, ou seja, alarmantes onze mil, seiscentas e oitenta mortes todos os anos. Também segundo a OMS, cálculos efetuados no ano de 2016,  aproximadamente 35 milhões de anos de vida foram perdidos no mundo, levando-se em consideração a idade da vítima e a expectativa de vida.

        Reitero que muitos desses casos de suicídio acontecem em decorrência do desespero daqueles que não são aceitos com suas aparentes diferenças.

        Adoto, como conceito de preconceito, o medo das diferenças aparentes ou, acrescento, a raiva do agressor ao identificar-se com a vítima, portadora da mesma condição contida em si próprio, sem aceitá-la. O preconceito traz sempre um julgamento antecipado e negativo em razão de alguma particularidade, seja em razão da “raça”, do credo religioso, da condição social ou opção sexual. Mais recentemente temos assistido no Brasil o fortalecimento do preconceito político.

        Preconceito não é apenas o racial, apesar de ser este o mais lembrado ao se tratar desse terrível mal, motivo de flagelo para tantas pessoas. Pretendo me referir brevemente a alguns deles.

        Há preconceito em razão de posicionamento político. A polarização entre as auto-denominadas esquerda e direita (embora tenham muitos objetivos em comum, razão porque considero mais um enquadramento fisiológica que ideológico) tem levado a casos extremos, em que antecipadamente se considera quem pensa politicamente diferente, fascista ou nazista, de um lado, e comunista, ladrão e corrupto de outro. Não tem havido meio-termo e a falta de tolerância, em razão do pré-conceito, ocasionou rupturas de laços de amizade e até familiares. Uma lástima!

                Socialmente mais aceitável, mesmo sendo merecedor da indignação e repulsa, nos deparamos com o preconceito em razão da condição social da vítima. Não raras vezes nos deparamos com a travessia para a calçada oposta quando na mesma direção vem um mal trajado cidadão. A falta de oportunidade de um emprego pode lhe acarretar o conceito errôneo de que se trata de um vagabundo, uma pessoa sem valor, não um cidadão em dificuldades. Ainda há quem reserve aos empregados o elevador “de serviço”, restando o social para os moradores do condomínio.

                Há, sim, casos de intolerância religiosa muitas vezes confundida e aceita como “livre expressão de pensamento”. Trata-se de um caso típico de preconceito quando se ofende a religiosidade de outrem, praticando-se o ato como se a vítima fosse concebida como um fanático, alguém que não merecesse ser levado a sério, quais os loucos de antigamente, perseguidos e apedrejados por crianças com a tolerância dos pais. Recentemente um grupo de humoristas apresentou uma “brincadeira”, ou “quadro de humor”, desrespeitoso e afrontando o enorme grupo de cidadãos cristãos. Ocorreu uma injustificada e repreensível reação violenta, mas grande parte da imprensa e das autoridades partiram na defesa da “livre expressão de pensamento”, negando-se a reconhecer o também repreensível ato  preconceituoso. Reitero meu posicionamento contrário à reação violenta, mas não me furto a repreender o preconceituoso.

                Talvez o mais cruel dos preconceitos decorra da opção sexual da vítima, que não poucas vezes  incapaz de  suportar o sofrimento e, quiçá, condenando-se pelas reações muitas vezes dentro do próprio lar, busca no suicídio o fim do sofrimento. Trata-se de uma situação bem retratada, e.g., no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”.  Na “série Anne com e” (recomendo) um jovem com tendências homossexuais, ao ser indagado porque seu professor lhe agredia rancorosamente sempre que se apresentava oportunidade de ofendê-lo moralmente, respondeu: porque ele é igual e mim, mas não aceita e desconta em mim o rancor que guarda dentro de si.

                Por fim, abordo o preconceito racial, absolutamente despropositado e que demonstra a incapacidade intelectual do ofensor, que afronta a ciência desconhecendo o princípio da evolução. As “diferentes raças” não são mais que resultado das influências ambientais numa mesma espécie, o ser humano. O desvirtuamento histórico, fruto da ganância econômica, acarretou o injustificado sentimento de menosprezo e condições inferiores para o desenvolvimento, em condições de igualdade, com os cidadãos de outra cor ou nacionalidade. Trata-se de um preconceito que incentiva a violência física ou a hipocrisia da negativa de sua existência, disfarçada sob um olhar irônico e maldoso ao encontrar um casal de parceiros, sendo um deles branco e outro negro. Felizmente o mundo toma consciência e parte a combater esse preconceito.

                Concluo com a observação de que o preconceito é fruto do medo das diferenças ou da ira de identificar-se com alguém dotado dos mesmas tendências do agressor, as quais não aceita. Combate-se o preconceito inicialmente pela educação e, felizmente, já se observa uma tendência de melhora nas crianças e jovens de nossos dias. Outra forma de combate se faz pelo uso da imprensa e das redes sociais, em campanhas de conscientização e denúncia das ocorrências, cobrando a punição que o caso requer. As manifestações públicas, as passeatas de protestos, são legítimas e aconselháveis, mas não o uso da violência.

        Apliquemos a sabedoria de Gandhi, um dos maiores líderes pacifistas da história:

         “A não violência é a maior força que existe à disposição do ser humano. É mais poderosa que qualquer arma de destruição inventada pelo ser humano, por mais sofisticada que seja”.

        Abaixo o preconceito.”

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