Religiões de Matriz Africana e de Matriz Europeia na Sociedade Brasileira Contemporânea

junho 25, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO  Colaborador Permanente   Prof. Dr. Giancarlo MOSER (Pós-Doutor pela FGV/RJ , Doutorado em Ciências Sociais , Doutorado em Patrimônio Cultural (PPGTH/UNIVALI), Graduação em História pela UFSC , Licenciatura em Sociologia- Professor da UDESC), escreveu crônica sobre as “Religiões de Matriz Africana e de Matriz Europeia na Sociedade Brasileira Contemporânea”. Merece leitura reflexiva , como segue:

“Em tempos de recrudescimento da intolerância religiosa é oportuno uma breve análise do panorama religioso brasil, tendo-se em conta que o Brasil é muito diversificado na adoção de diferentes religiões. A criação de um “Dia contra a intolerância religiosa”[1] pelo presidente Lula da Silva (2003-2010) é um exemplo disso.

Para melhor entendimento o conceito subjacente de Religião, vejamos como Durkheim (1996, p. 32) procura definir um sistema de crenças e práticas (como os rituais, orações etc.) relativas ao sagrado: “[…] uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a ela aderem.”

Desde que os portugueses colonizaram o Brasil no século XVI, ele é predominantemente católico. E hoje o Brasil tem mais católicos romanos do que qualquer outro país do mundo – estimados 123 milhões. Mas a parcela da população geral do Brasil que se identifica como católica vem caindo constantemente nas últimas décadas, enquanto a porcentagem de brasileiros que pertencem a igrejas protestantes tem aumentado. Participações menores, mas cada vez maiores, de brasileiros também se identificam com outras religiões ou com nenhuma religião.

Ao lado das principais religiões – catolicismo e protestantismo – e grandes sincretismos como candomblé, xamanismo e espiritismo, encontramos no Brasil algumas das religiões que permanecem importantes em outras partes do mundo representadas em minoria.

Acredita-se que a proporção de religiões cristãs na população brasileira seja de 83%; agnósticos e ateus são estimados em 8% e todas as outras religiões agrupadas (afro- americanas, judaica, orientais entre outras) não excedem 5%, de acordo com as pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010.

A história das Religiões e Crenças no Brasil é, acima de tudo, um emaranhado dos encontros, trocas e assimilação, forçados ou não, entre os nativos e as diferentes ondas de imigrantes que chegaram e com eles trouxeram suas próprias crenças. Seus descendentes, muitas vezes isolados no imenso território do país, têm, ao longo do tempo, trocado conhecimento e espiritualidade. Da mesma forma que nativos e escravizados vindos da África rapidamente se tornaram cristãos por coação, eles transmitiram e trocaram suas crenças através de mitos e superstições. A partir desse processo perpetuamente dinâmico, muitas vezes secreto (sendo totalmente proibido e fortemente reprimido pelos colonos), surgiram novas religiões. Eles tornaram viva a manutenção dos legados mitológicos africanos e indígenas, escondendo-os atrás dos nomes dos santos católicos.

Em tempos de escravidão, os africanos levados à força para o Brasil lutaram contra seu medo ao se refugiarem na prática de suas crenças ancestrais. Essas crenças eram, geralmente, proibidas pelos senhores, fazendo com que os escravos dissimulassem suas crenças e adoração dos santos cristãos. Daí surgiu essa mistura original. Essas venerações permitiram que os oprimidos mantivessem uma tênue ligação com seu passado africano, para apoiar a moral da comunidade, e ao mesmo tempo se solidarizassem com a dureza de suas condições e a crueldade de seus proprietários.

Em 1891, quando a primeira Constituição Republicana brasileira foi estabelecida, o Brasil deixou de ter uma religião oficial e permaneceu secular desde então, embora a Igreja Católica tenha permanecido politicamente influente na década de 1970. A Constituição do Brasil de 1988 garante a liberdade de religião e proíbe veementemente o estabelecimento de qualquer religião, proibindo o  apoio governamental ou o impedimento da religião em todos os níveis.

Embora a Constituição Federal atual garanta tolerância religiosa a todos os seus cidadãos (artigo 5º, inciso VI), proíbe expressamente todas as entidades que compõem a Federação de fundar e financiar cultos públicos e igrejas estaduais controladas e coordenadas pelo Governo, entre outros, até agora o Estado brasileiro reconhece o caráter peculiar da Igreja Católica as demais religiões em seu sistema, razão pela qual a lei reconhece a Nossa Senhora de Aparecida, como a “padroeira do Brasil”; a Constituição é jurada a proteção de Deus e os feriados católicos (como o dia de Nossa Senhora Aparecida) são reconhecidos como feriados nacionais por lei.

O Brasil é uma Sociedade industrializada e urbanizada com graves problemas sociais como legado de seu passado colonial e pós-colonial, mas também resultado da dramática urbanização. Esses processos tiveram um impacto na paisagem religiosa do Brasil de hoje. Uma conseqüência foi a crescente diversificação devido à chegada de outras denominações cristãs, bem como de outras religiões e crenças, como: o Islã, o judaísmo, o budismo e o hinduísmo. No entanto, essas religiões não permaneceram dentro de uma faixa étnica limitada da Sociedade, mas se espalharam e se desenvolveram amplamente. Outra conseqüência foi o impacto na estratificação de gênero e social. Não é mais possível restringir papéis e tradições religiosas específicas a um setor social ou racial da Sociedade.

Referências:

DURKHEIM, E.; As formas elementares da vida religiosa. São Paulo, ed. Martins

Fontes, 1996.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: síntese de indicadores. Rio de Janeiro: IBGE. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2012.

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988.

[1] Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro) por meio da Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”

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