A PESTE DE CAMUS E A PESTE DA COVID-19

agosto 21, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO LEUDOO Colaborador Permanente Afonso Leudo de Oliveira CARVALHO  comparece no nosso Blog, dessa vez com uma  obra extraordinária  que trata de tema atualíssimo : ” A PESTE” , de Camus.

Segue o Texto em inteiro teor para leitura e  rellexões   de todos nós :

“A Peste, de Albert Camus, é um livro para ser digerido aos poucos. Comecei a ler faz alguns anos, após ter terminado o incrível O Estrangeiro, mas não consegui dar continuidade. Retomei em janeiro deste ano, mas parei novamente. O mais bizarro é que comecei essa leitura um pouco antes da pandemia do novo Coronavírus! Inclusive, quando começaram as quarentenas pelo mundo afora, lembrei na hora da obra de Camus e retomei a leitura (mais uma vez!). Por ser um clássico difícil de digerir — não por ser ruim, mas por ser intenso — não consegui engrenar, mas agora a curiosidade foi mais forte.

Confesso que nesses tempos de pandemia não é fácil engatar as leituras. Meu emocional ficou abalado, as coisas perderam a graça, são muitas informações para digerir… Mas, desabafos à parte, vamos escarafunchar: Primeiro, a sinopse oficial:

A vida após a peste. Um romance de um dos mais importantes e representativos autores do século XX e Prêmio Nobel de Literatura. Romance que destaca a mudança na vida da cidade de Orã, na Argélia, depois que ela é atingida por uma terrível peste, transmitida por ratos, que dizima a população. É inegável a dimensão política deste livro, um dos mais lidos do pós-guerra, uma vez que a cidade assolada pela epidemia lembra a ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial. A Peste é uma obra de resistência em todos os sentidos da palavra. O texto de Albert Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem moderno.

A epidemia na cidade de Orã, Argélia, passa-se na década de 1940, mas seus efeitos são muito similares com o que vivemos hoje. Em diversos trechos fiquei chocado com a similaridade dos acontecimentos, até mesmo da reação dos personagens com o alastramento da doença.

“A princípio, as pessoas tinham aceitado estarem isoladas do exterior como teriam aceitado qualquer outro inconveniente temporário que apenas perturbasse alguns de seus hábitos. Mas, subitamente conscientes de uma espécie de sequestro sob a tampa do céu em que o verão começava a crepitar, sentiam confusamente que essa reclusão lhes ameaçava toda a vida e, chegada à noite, a energia que recuperavam com o frescor lançava-os por vezes a atos de desespero. ” [p.97]

As reflexões de A Peste são recorrentes nas obras de Camus, como amor, o exílio, a revolta e principalmente o absurdo da existência. Podemos ver isso em O Mito de Sísifo e em O Estrangeiro, bem como em outros textos. Neste livro, Camus traz a percepção do individual sobre o coletivo; o modo como as pessoas veem seus cotidianos as unem e fortalecem, mas também as corroem. A peste é uma constante ameaça, não somente à saúde dos indivíduos, mas aos seus direitos humanos fundamentais.

Não precisamos falar do autor, mas vamos falar.

Albert Camus é escritor francês nascido na Argélia, ocupada pelos franceses e  na guerra contra os nazistas, ele ficou ao lado dos seus, lutando na Resistência. Ele é ganhador de um Nobel de Literatura e o livro que colocou o prêmio em suas mãos foi A Peste. Escrito dois anos após o fim da 2ª Guerra.

A Peste é um romance — que os acadêmicos dizem ser uma crônica — que não tem não tem época. O autor situa a narrativa em 194… mas poderia ser em 134… ou 340 AC. Por isso, é um a obra-prima. Não importa, porque o eixo condutor da história, assim como na vida real, é o ser humano e suas fraquezas, nós ou Camus, suas virtudes, seus defeitos e suas maldades. A Peste de Camus mostra com agudeza de espírito até onde o ser humano é capaz de seguir adiante, seja num ato de heroísmo, seja numa ação aviltante e covarde de roubar ou assassinar o próximo por um punhado de moedas.

Ou, até onde vai a inocência e a falta de informação, e  até onde voa o egoísmo de quem pensa apenas em si e no seu bem-estar, de quem pensa na fuga como refúgio ou como salvação, enquanto os demais são confinados e deixados para trás.

A morte, a guerra, a crença, a solidão, o suicídio, as buscas pela felicidade são tratadas neste livro com a naturalidade da evocação literária de Camus, mas o que nele sobressai é a importância da solidariedade. O médico Bernard Rieux é o herói que divide os dias de peste entre cuidar dos doentes e mortos que se amontoam e dialogar com seu amigo Jean Tarrou, com o padre Paneloux e suas convicções abaladas diante do sofrimento imposto pela doença. Conhecer os personagens, como Cottard, Rambert, Grand e a tessitura que Camus apregoa a cada um na construção dessa narrativa é um prato soberbo para quem ama literatura.

Claro que a narrativa tem seus tons de dramaticidade entremeadas com a discussão filosófica que encontramos em todas as obras de Albert Camus, como em A Queda, em O Estrangeiro ou em O Homem Revoltado. Para ler Camus é preciso abrir não apenas a mente, mas também o coração. Como compreender a motivação que leva o Dr. Rieux a deixar de lado seus problemas pessoais, seus sonhos e sua carreira para socorrer os moribundos?

Como nos dias atuais, os números de mortos crescem e medidas públicas e impertinentes são necessárias. Também na Orã que Camus nos mostra é formado um mutirão para enterrar os mortos, socorrer as vítimas, encaminhá-las à quarentena. A cidade é isolada e dentro dela isoladas estão as pessoas. A rotina e os costumes cotidianos são quebrados pela epidemia e as pessoas são levadas às reflexões. Esse embate entre a perda dos sonhos ou, então, sua suspensão temporária, e o isolamento social e cultural.

E agora experimentamos na vida real em tempos de Covid-19. Descrente de carteirinha, Camus nos deixa com uma sensação de que o tédio é a espera que aguem nos redima da doença, juntamente na espera  de que alguém nos salve da amargura e da convid-19. Leva-nos, enfim, a esbarrar nas agruras que envolvem todos os setores da Sociedade.”

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