UMA ANÁLISE DO LIVRO “A PRAÇA E A TORRE”, DE NIALL FERGUSON

agosto 30, 2020 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO  Colaborador Permanente   Prof. Dr. Giancarlo MOSER (Pós-Doutor pela FGV/RJ , Doutorado em Ciências Sociais , Doutorado em Patrimônio Cultural (PPGTH/UNIVALI), Graduação em História pela UFSC , Licenciatura em Sociologia- Professor da UDESC), analisa a obra intitulada  A PRAÇA E A TORRE “, de autoria de Niall FERGUSON. Merece leitura atenta, como segue em inteiro teor:

“ ´A PRAÇA E A TORRE`, de Niall Ferguson, o novo livro deste autor antimarxista e que propõe a uma nova maneira de enxergar a História, é uma tentativa de explicar a interconectividade do mundo em que vivemos através das lentes da história, ao mesmo tempo em que olhamos para o futuro próximo. Nas últimas três décadas, é fácil identificar certa tendência nessa direção. Tudo começou com a visão altamente otimista de Fukuyama sobre “o fim da história” após a queda do comunismo, passando pelo medo de Huntington de “um choque de civilizações” e a previsão mais recente e sombria de Noah Harari de que a humanidade seria superada por tecnologias.

Segundo Ferguson, a maior parte da história é hierárquica: descreve papas, presidentes e líderes revolucionários. Porém, e se a razão disso for apenas o fato de as hierarquias criarem os arquivos históricos? E se estivermos ignorando redes igualmente poderosas, mas menos visíveis — deixando-as para os defensores de teorias conspiratórias, com seus sonhos de Illuminati todo-poderosos? O século XXI tem sido chamado de a era das redes. Neste livro, o autor argumenta que as redes sociais não são um fenômeno novo. Desde as gráficas e pregadores que fizeram a reforma aos maçons que lideraram a Revolução Norte-Americana, passando pelo Iluminismo, as grandes guerras e até a recessão econômica de 2008/2009, foram as redes que abalaram a ordem vigente. Ao longo da História, hierarquias alojadas em altas torres governavam, mas muitas vezes o poder real residia nas redes das praças das cidades. São as redes que tendem a inovar – e é através delas que as ideias revolucionárias se espalham. Longe de ser novidade, a nossa era é a Segunda Era das Redes, com o computador no lugar da prensa móvel. Portanto, aqueles que mantêm esperanças de uma utopia de “cidadãos da Internet” interconectados talvez se desapontem, pois as redes são suscetíveis a agregações, contágios, e até mesmo interrupções de atividades.

Ferguson posiciona as redes na base da inovação humana, argumentando que elas nos permitiram construir a civilização moderna. Nesse sentido, as redes são extremamente variadas, incluindo padrões de povoamento e migração nos primeiros dias da Humanidade, mas também cultos e crenças que surgem sem planos reais. Ele tenta explicar as diferenças entre redes e hierarquias. Enquanto as redes as constroem em uma direção horizontal, as hierarquias fazem o mesmo, apenas de forma descendente, nunca no mesmo nível.

A metáfora da torre tem o objetivo de ilustrar o poder oficial e como ele se posiciona no topo da praça e suas várias trocas entre os indivíduos. A tese principal do livro é que existiram duas idades de redes, caracterizadas pelo fracasso do sistema tradicional em manter o monopólio do poder. O primeiro período começou com a invenção de Gutenberg. Ferguson afirma que isso permitiu que as idéias de Lutero se propagassem e, assim, a Reforma ocorresse. Isso levou à contestação de velhas idéias e, por fim, ao Iluminismo. Daqui em diante, Ferguson olha para a história de redes particulares, enquanto sempre tenta se distanciar dos teóricos da conspiração ao sublinhar que apenas as hierarquias dão poder; as redes, em vez disso, são fontes de influência.

O exemplo mais interessante é o dos ‘Illuminati’. Essa organização, fundada em 1776 na Baviera por membros da elite, foi extinta em 1787. Isso é considerado um tanto peculiar por Ferguson, pois parecem ser muito mais populares nas histórias do que os maçons mais bem-sucedidos. Estes últimos até desempenharam papéis importantes em grandes eventos, tendo laços estreitos com a Revolução Americana. Na opinião do autor, isso se devia ao fato de ter uma estrutura hierárquica e, principalmente, um ritual que facilitava as interações entre nobres e clérigos.

Na verdade, Ferguson argumenta que isso permitiu que os revolucionários americanos cooperassem com mais eficiência. É a partir daqui, para Ferguson, que surge uma relação inerente entre redes e revoluções. Isso se deve à sua capacidade de gerar novas ideias, que muitas vezes se contrapõem às estruturas de poder existentes. Em contraste com o exemplo americano, ele traz a Revolução Francesa, que carecia de redes bem organizadas, levando inevitavelmente ao caos e à anarquia.

A Primeira Era das Redes terminou no século XIX, quando o Estado finalmente foi capaz de conter os poderes desencadeados pela invenção de Gutenberg. Ferguson argumenta que mesmo as redes intelectuais se tornaram estruturas hierárquicas durante este período. Esse fenômeno atingiu seu ápice em meados do século XX, com o surgimento dos regimes totalitários. Ele argumenta que tanto o nazismo quanto o comunismo se tornaram mais hierárquicos à medida que se expandiram, sendo as burocracias massivas a principal manifestação disso.

A Segunda Era das Redes começou na década de 1970. Ao longo desta parte do livro, Ferguson explora exemplos da rede de conexões de Kissinger com indivíduos influentes até a forma descentralizada assumida por organizações terroristas. Mas tudo culmina com uma discussão sobre a internet e as redes sociais, com foco nos dois gigantes: Facebook e Google.

Embora aprecie a facilitação da comunicação entre os indivíduos que a internet trouxe, ele destaca alguns dos perigos que eles também podem representar. Os principais exemplos que ele destaca são o sucesso da propaganda do ISIS, os resultados do referendo do Brexit e da eleição presidencial dos EUA de 2016. No primeiro caso, ele fala sobre como a internet permitiu que a organização se tornasse algo semelhante a uma rede de código aberto. Isso o tornou flexível e capaz de operar em qualquer lugar. O segundo exemplo é caracterizado como uma falha da velha elite em adaptar e usar adequadamente os novos instrumentos. Isso se liga à ideia de que a internet pode de fato representar uma ameaça à ordem democrática como a conhecemos. Pode ser usado para minar governos, mas estes, por sua vez, também podem usar redes online para controlar a população (por exemplo, nos casos da China e da Rússia).

Em termos de análise de redes e hierarquias, não se coloca como o livro definitivo, mas sim, como mais uma síntese de um amplo fenômeno.”

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