NOSSO FIM DO MUNDO !!

março 12, 2021 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO DE PERTILLEO Professor MSc. Marcelo PERTILLE  (Doutorando e mestre em Ciências Criminais (PUCRS); Especialista em Direito Processual Penal (UNIVALI);Especialista em Direito Público (UNIVALI); Professor universitário; Advogado (OAB/SC 33.567) atendeu  convite desse Blog, e escreveu crônica intitulada NOSSO FIM DO MUNDO , que estimula reflexões e merece ser lida com toda atenção. Em inteiro teor, a seguir:

“As representações do fim do mundo vão desde contextos religiosos, como promessas de arrebatamento ou inferno apocalíptico, até dramatizações artísticas que transformam em entretenimento muito fogo e suas labaredas.

“De onde viemos?” e “para onde vamos?”, mesmo diante da incapacidade humana de racionalizá-las, convertem-se em medidas sobre os limites da vida performatizada no ambiente terrestre. Se sobre o começo de tudo nada mais pode ser feito, é a ideia de finitude que tem mais poder para dimensionar os agires.

As questões sobre a origem podem até incentivar ações para uma espécie de satisfação missionária, contemplação e agradecimento, mas há na assimilação do fim uma espécie de acerto de contas ou de incentivos para o gozo de um ciclo (aproveitar a vida!). O tempo que passa, que escorre lento ou segue em um frenesi vertiginoso, cede e furta estabilidade emocional diante do remate que inevitavelmente se aproxima: está, em grande parte, na certeza do fim a dimensão ética daquilo que se executa durante a existência humana.

O fim da vida, em que pese seus desafios cognitivos acerca de um além-vida, constitui-se na certeza primeira quanto à existência. Para o fim do mundo não vale o mesmo princípio. Sua percepção durante os séculos viu-se ligada ao místico, ao divino, até que a ciência também com ele passou a se relacionar ao deduzir metodologicamente possibilidades para sua chegada. E importa ratificar justamente as diferenças das condutas humanas quando se tem por limite último a vida individualmente pensada ou o mundo que se concebe já em aspectos coletivos.

A antropologia, também a história e a filosofia, tem muito a considerar. Mas o ponto que merece foco aqui está mesmo nas dimensões acerca de como é em linhas gerais sentida aos humanos, para quem o mundo é mundo, a possibilidade de que o todo possa se acabar. Devem as pessoas se preocupar com esse fim, ou, diante das incertezas, a emergência de aproveitar o tempo faz dessa preocupação uma questão irrelevante? E esse fim do mundo a se considerar deve ser visto em contextos divinos, portanto inegociável desde um ponto de vista racional, ou, fora do ambiente das crenças, pode ser diagnosticado a ponto de indicar algo que possa/deva ser feito no sentido de seu adiamento ou talvez até evitação?

O mundo enquanto conceito está conectado às noções de totalidade, ainda mais diante das ciências da astronomia, que revelam diversos outros cenários cósmicos tão distantes quanto a capacidade humana de imaginá-los. Mais delimitado, considerando fatores acerca das possibilidades de interação humana imediata, reduz-se aos limites deste planeta, a biosfera terrestre.

Mas não é só! Desse conceito de fim de mundo poder-se-ia imaginar o seu fim físico, seu desaparecimento completo, um fim a impossibilitar a continuidade daquilo existente (o inexistente absoluto). Mas também um fim ligado à extinção de um mundo possível aos humanos e a todas as espécies da fauna e flora, sem que o globo terrestre em si desaparecesse.

Outra possibilidade consideraria apenas o desaparecimento do humano e o seguimento de um todo ecológico com seus próprios ciclos. E mais, talvez um fim apenas como término de algo até então conhecido, atrelado a específicos modos de vida, resumindo-se na cessação de um estado de coisas atinentes à fruição das maneiras por meio das quais os seres humanos optaram pelo seu desenvolvimento.

De todos os pontos possíveis, o fim do mundo que importa considerar está mesmo ligado à viabilidade da vida humana neste planeta e, por consequência, às noções de equilíbrio ecológico e de autonomia dos ciclos naturais. E é diante disso que a noção de pertencimento dos humanos quanto à natureza revela fatores determinantes.

O processo de tomada de consciência quanto àquilo que compõem este mundo sobre o qual se considera a possibilidade do fim é decisivo para a determinação do que pode e deve ser feito em uma realidade que passa a se preocupar com o estado atual do desenvolvimento.

Desde as Comunidades Sociedades mais remotas, há indicações de que o assunto sempre foi alvo manifestações que, em geral, foram documentadas por meio da arte. Mas o que faz nesta contemporaneidade o contexto de análise se dar de modo diferente, não como um fim apocalíptico, são as descobertas e previsões das ciências. Projeções racionalizadas que explicam a possibilidade de um futuro de escassez e com um possível término das condições de vida conhecidas desde que mantidas determinadas relações com o meio ambiente natural.

O interesse científico não recai, portanto, sobre visões cosmológicas ou divinas, mas parte, em um contexto de contracultura frente a conceitos de desenvolvimento, para diagnosticar comportamentos agressores ao equilíbrio ecossistêmico e, em consequência, ao clima.

Trata-se de buscar compreensão acerca do entendimento que marca esta contemporaneidade quanto às relações produtivas que mantém, justamente para investigar se é necessário somar voz àqueles que apontam para um possível fim desse mundo, que poderá padecer exterminado pelos próprios humanos.

Por isso, fundamental compreender de que modo se estabelece o pensamento dominante acerca dessas noções de desenvolvimento e suas relações com um possível fim de mundo. Buscar além dos dados técnicos a indicar padrões de alteração dos equilíbrios ecossistêmicos comprometedores da qualidade de vida humana, também explicações sobre de que modo a mundivisão dominante sobre progresso, bem-estar e desenvolvimento se preocupa com as questões desveladas pela ciência acerca de um possível fim.

O atual estágio da Humanidade apresenta perguntas inadiáveis, com respostas que sugerem remodelações quanto ao já construído em prol da civilidade, o que acaba pondo em xeque objetivos já delineados e para os quais sistemas são pensados e operados.

É preciso que a política, o Direito e as próprias ciências da terra entendam a necessidade de quebrar determinadas epistemologias que constroem em ciranda uma autofagia suicida. Algo que pudesse levar a Humanidade a considerar outros marcos e possibilidades para além daqueles que trouxeram este estado de preocupação.

Os estudos ecológicos se enquadram nessa dinâmica e podem ser vistos como a voz a desvelar e resistir ao fim do mundo.”

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