VELHICE NÃO É DOENÇA

outubro 6, 2021 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO ADVOGADA MARIA JOANNAMaria Joana Barni ZUCCO (Advogada , Membro  da Associação Nacional  de Gerontologia  de Santa Catarina-ANG-SC; Ex-Conselheira   em Conselhos  do Idoso-CMI -Florianópolis, CEI-SC e CNDI), a convite de nosso Blog, escreveu a excelente crônica “Velhice não é doença”. Merece leitura atenta e reflexiva. O inteiro teor segue:

“Quero  que as marcas  do meu corpo  falem do meu histórico de vida, em todas as  suas dimensões; não de minhas  doenças.

A velhice é uma fase  muito almejada da vida, uma vez que  a grande maioria das pessoas (para não  dizer  a totalidade)  não  quer  morrer jovem. A velhice é para  ser  vivida!

A doença, sintomática ou não, é detestada; deve  ser  tratada, seja para  aliviar  os sintomas, seja para  evitar  que seus efeitos nos sistemas  e órgãos levem  à morte.

Longevidade significa vida longa, velhice,  e tem a ver com vida.

O envelhecimento é um processo personalíssimo: pode-se chegar a uma situação típica de velhice em diferentes momentos da vida cronológica e em diferentes condições. A velhice decorre de fatos de nossa existência e se consolida ao longo da nossa vida. As influências experimentadas nas diferentes etapas do viver, sejam elas  físicas, mentais, sociais  ou  espirituais,  formarão  a base  do indivíduo que  chega  à velhice.

Não se fica velho aos 60 anos. Conforme o art. 6º do Plano de Ação Internacional sobre o Envelhecimento, importante documento da Segunda Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, realizada em Madri (2002), “o envelhecimento é um processo natural que ocorre  ao longo de toda a experiência de vida do ser humano, por meio de escolhas e de circunstâncias”.

Contudo, é preciso reconhecer  que, com o envelhecimento, é comum o aparecimento de  “fragilidades” que poderão propiciar a  instalação de algumas doenças  muito comuns  nessa fase  da vida. Mesmo assim, não se pode confundir  doença  com velhice.

Para a Política Nacional  da Saúde do Idoso (MS – Portaria 2.528/2006) no idoso, o conceito de saúde se traduz mais pela sua condição de autonomia e independência que pela presença ou ausência de doença orgânica. Ou seja, saúde, para o idoso, está relacionada à capacidade de gerir a sua própria vida,  de cuidar de si mesmo, de tomar  suas  decisões. Tudo isso, mesmo que tiver  alguma doença, sintomática ou não.

A decisão da Organização Mundial da Saúde de atribuir um código de doença à “velhice” é no mínimo assustadora. Gerará efeitos contraditórios às medidas em prol do Envelhecimento Ativo e Saudável pelo qual vem trabalhando há anos, assim como às recentes propostas contidas na estratégia denominada Década do Envelhecimento Saudável (2021 – 2030). Além disso, propiciará o crescimento do preconceito contra a velhice – o ageísmo – já suficientemente difundido e causador de sofrimento às pessoas idosas.

Por último, cabe ressaltar as  consequências perversas para a epidemiologia. Atualmente, a CID é uma das principais ferramentas epidemiológicas no cotidiano dos médicos, monitorando  a  incidência  e a prevalência  das enfermidades que afetam  as pessoas mais velhas. Sem diagnósticos pormenorizados, faltarão informações necessárias à investigação das reais causas de mortes bem como investimentos para o tratamento dessas doenças. Velhice não demanda tratamento.

Assim, urge que órgãos públicos e privados, nacionais e internacionais, se manifestem contra a classificação de velhice como doença, na nova  versão da CID, a vigorar  a partir  de  2022. Só chegará à velhice quem não morrer cedo; portanto, velhice é meta de vida.

Definitivamente não é doença!

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