CONSTRUIR PONTES E DERRUBAR MUROS?

fevereiro 6, 2022 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

foto-ricardo-rosaNosso  Colaborador Permanente Advogado , Professor  e Presidente do Conselho Deliberativo do IASC (Instituto dos Advogados de Santa Catarina) Ricardo José da ROSA, produziu texto que nos leva a estimulantes reflexões sobre “construir pontes e derrubar muros”. Merece leitura atenta, em inteiro teor, como segue. 

“Ao concluir seu brilhante discurso, o orador estimulou a seleta platéia: Vamos construir pontes e derrubar muros.Aliás, até o Papa Francisco insiste em dizer o mesmo, em suas pregações. Parece que construir muros se tornou um ato impróprio, merecedor de todas as reprimendas, “um pecado próprio dos egoistas”. Uma dúvida, no entanto, se instalou em minha mente. Lembrei um adágio repetido muito pelos meus pais, em aconselhamento aos filhos: Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és (assim mesmo, dir-te-ei, o correto, mesmo correndo o risco de ser acusado de cometer um preciosismo de linguagem). A destruição dos muros e a construção de pontes eliminarão limites, trarão todos para o mesmo lado igualando-nos a todos. Que dizer, então, ao malfeitor que se apresentar ao meu lado? estejas à vontade, meu amigo, o que queres? Minha casa ficará, à noite, sem proteção, sem muro e com uma ponte permitindo ao mesmo malfeitor que adentre e lhe direi: amigo, cearás comigo?  o que vais levar depois?  Certo, sei que há um exagero proposital em minhas ponderações, entendo que as pontes deverão ser construídas e os muros derrubados para que se fortaleçam as boas ideias, que se concretizem boas ações, que preconceitos sejam definitivamente eliminados e se busque a união. Não posso deixar de me lembrar, nesse momento, de uma antiga história segundo a qual dois homens se encontraram, cada um carregando uma maçã; trocam as maçãs e cada um deles continua com uma. Dois sábios se encontram, cada um com uma ideia; trocam as ideias e cada um sai com duas. Para isso servem as pontes, promovendo a aproximação direcionada ao bem e ao desenvolvimento.  O que quero, então, dizer com os exemplos apresentados na primeira parte deste artigo? Simplesmente que não se deve generalizar, tudo tem sua serventia, inclusive os muros, assim como as pontes. Há casos em que as pontes são bem-vindas, há casos em que os muros são necessários. Durante as guerras, pontes foram destruídas para impedir a aproximação do inimigo.  O mesmo se pode dizer quando os muros das fortalezas foram derrubados possibilitando a vitória dos adversários. Unamos nossos esforços, nossas inteligências, sempre para tornar melhor o mundo em que vivemos, a convivência fraterna com nossos irmãos. Saibamos construir muros para não permitir que corrompam nossa juventude, que aprisionem nossas ideias e o direito de expressá-las.Que os muros nos protejam daqueles que nos roubam energia, que combatam nossas ideias com violência, fugindo aos debates, que buscam roubar nossas liberdades. Que os muros que construirmos, porém, não sejam feitos com as pedras das fortalezas, mas com vidros fortes, mas transparentes. Como se costuma dizer, um exemplo vale mais que mil palavras. Essa é a razão para construirmos muros transparentes. Que os muros não interrompam a comunicação mas sirvam de desafio aos que não buscam o bem, que vejam os benefícios de uma sociedade fraterna e dela queiram fazer parte. Baltazar Gracián, há mais de trezentos anos, ensinava: “Com bondade e sabedoria se ganha respeito e amor. Conseguir admiração é conseguir muito na vida. Mas, para conseguir que o respeitem, precisa de um pendão especial para o bem e mais: a sabedoria necessária para cultivá-lo. Começa-se com um e se cresce com a outra. Não basta falar e pensar inteligentemente, ainda que suponha que quem domina o conceito ganha o afeto dos outros. É requerido muito mais. É preciso mostrar benevolência: fazer o bem a todos, combinar boas palavras com melhores obras, amar para ser amado”. (A Arte da sabedoria, tradução Luis Roberto Antonik, Ed. Barueri, SP, 2018, pág. 105). Assim devemos nos comportar, apresentando exemplos. Mas, uma pergunta incômoda se impõe nesse momento: Em que lado do muro estamos? Numa sociedade dominada pela polarização, pelo radicalismo, pela consagração da mediocridade, estamos preparados para servir de exemplo ou nos deixamos induzir pelo acirramento de posições, radicalizamos nas ideias e fugimos dos debates amistosos? Conservamos a ética como bandeira em nossas vidas, ou agimos de forma diversa quando estamos sós ou quando estamos na frente de nossos colegas, nossos alunos, nossos companheiros de trabalho?

Agora busco o ensinamento de Sêneca (A Vida Feliz, Tradução Fábio Meneses Santos, SP, 2021, pág. 63): “Um remédio soberano contra todos os infortúnios é a constância de espírito: a mudança de posição e de semblante parece como se um homem fosse levado pelo vento. Nada pode estar acima dele que esteja acima do destino. Não é a violência, a reprovação, ou desprezo ou qualquer outra coisa vinda de fora que pode fazer um homem sábio desistir de seu terreno.” Seja esse o nosso desafio, mantermos a coerência de nossas atitudes em relação ao que praticamos e assim possamos ser o exemplo a influenciar os que estão no outro lado do muro. Mais que construirmos pontes ou derrubar muros, podemos nos dedicar a construir um ser humano melhor, mais justo e perfeito, a partir de nós mesmos. Aceitemos o desafio de construir templos às virtudes e cárceres para os vícios. Somente depois será oportuno derrubar os muros e construir pontes, porquanto as mudanças que se tornam necessárias devem começar por cada um de nós.

Mantenho os aplausos ao orador citado no início deste artigo, a quem expresso minha gratidão por haver provocado a reflexão ora apresentada.”

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