foto do prof AntonioO Professor Antônio NUNES é o Diretor Pedagógico do Colégio Cruz e Sousa. Recebeu o título de  Doutor Honoris Causa pelo Consejo Iberoamericano em Honor a Ia Calidad Educativa, em Lima, Peru. Em 2014, foi distinguido pela Câmara de Vereadores de Florianópolis com a Medalha Cruz e Sousa. Conselheiro no Conselho Estadual de Educação do Estado de Santa Catarina. Graduado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Pedagogia. Foi Professor das mais importantes escolas do Estado, bem como assessor no Ministério da Educação e Diretor Pedagógico da Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis, entre os anos de 2003 e 2006, e Diretor Presidente do Complexo de Ensino Superior Anita Garibaldi entre 2004 e 2008.

CRUZ E SOUSA FOTOO Professor Antonio escreveu oportuno e objetivo texto sobre o resgate devido e necessário do Poeta Cruz e Souza. Leia a seguir:

“Enigma, desafio, feixe de controvérsias – a inquietude o acompanha no esquife. Louco e lúcido sofreu como poucos, e à medida que a distância no tempo se acentua, mais e mais se firma o esplendor da sua glória.

A primeira associação que nos vem à cabeça quando se fala de Cruz e Sousa é sabedoria, erudição, heroísmo, jornalismo, injustiça, pobreza, racismo… É, portanto, com a sensação de dever cumprido que a Assembleia Legislativa anuncia uma lei, através da qual reconhece João da Cruz e Sousa como Promotor Público, diante da ignomínia cometida em 1883, quando havia sido indicado para a função e não fora empossado por ser negro. O referido projeto, do deputado Dirceu Dresch, é “uma reparação simbólica” pelo ato racista praticado há 134 anos. Na Desterro, as coisas não mudavam assim tão depressa. Nem mesmo hoje.

A maior contribuição que Cruz e Sousa deu à luta dos negros – segundo Eglê Malheiros – foi o fato de não aceitar a divisão das pessoas pela cor da pele ou pela conta no banco. Ele tinha absoluta predestinação. E tinha pressa. Morreu aos 37 anos. A passagem do poeta pela vida repousa sobre o cavalete da história como obra inacabada. A Abolição era um dos seus grandes temas e nele engajou-se ainda jovem que sentia na pele o quanto “era triste ser negro” (nas palavras de Lima Barreto). Certa feita, em carta a Virgílio Várzea, de 1889, desafogava o sentimento que pouco depois celebraria no irretocável texto “Emparedado”: “Quem me mandou vir cá abaixo à terra arrastar a calceta da vida! Para quê? Um triste negro, odiado pelas castas cultas, batido das sociedades…”.

Era o contraponto humano, sensível, entre lírico e mordaz, do seu triste cotidiano, vazado numa linguagem impecável. Hoje sobrevive  revigorado e ungido pela unanimidade nacional.

Cruz e Sousa nos desenha um protótipo de ética e competência, qualificações indispensáveis neste momento em que vivemos assombrados em relação ao futuro do Brasil. Dentre todas as homenagens que se pode prestar ao poeta a maior delas é conhecer-lhe a obra.”

[ publicado originalmente no D.C . de 24 e 25/9/2017, p. 6.- Republicado neste Blog com a autorização expressa do Autor].