A “CULTURA DO CANCELAMENTO” EM UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA

maio 10, 2021 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO Prof. Dr. GIANCARLO MOSER, nosso Colaborador Permanente trata da “Cultura do Cancelamento” em crônica plena de ensinamentos e estímulos para reflexão. Merece leitura atenta, em inteiro teor, a seguir.

“Sempre podemos cancelar nossos planos de viagens ou uma assinatura de revista, mas hoje em dia são as pessoas que estão sendo ‘canceladas’. O verbo cancelar remonta ao latim medieval, significando “riscar” (cancēllo,as,āvi,ātum,āre ‘cobrir com grades, riscar, inutilizar (riscando), anular’). Só nos últimos anos é que tem sido usado para declarar pessoas nulas e sem efeito nas Redes sociais, principalmente. Esta “Cultura de Cancelamento”  é uma forma moderna de ostracismo em que alguém é expulso dos círculos sociais ou profissionais – seja online, nas redes sociais ou pessoalmente. Aqueles que estão sujeitos a este ostracismo são considerados “cancelados”.

Historicamente, podemos encontrar semelhanças em costumes antigos, como o descrito no Levítico (terceiro livro da Bíblia hebraica) como um dos mecanismos subjacentes à hierarquia e à insistência da exclusão: a figura do “bode expiatório”, ou sa’ir la’aza ‘zel – um bode literal, cerimonialmente dotado pelo sumo sacerdote com “todas as culpas e delitos” da comunidade e expulso para o deserto.

Os gregos praticavam um rito parecido, usando um sacrifício humano, o pharmakos, em que um indivíduo era espancado e exposto nas ruas antes de ser exilado, o que era considerado simbolicamente uma espécie de morte. (Alguns historiadores acreditam que execuções também ocorreram, mas outros acham as evidências inconclusivas.) Isso era ao mesmo tempo diversão e expiação, uma maneira de um grupo dominante rotular um “outro” como mal e expulsar esse mal, como se ele então, não habitaria mais neles e eles poderiam se imaginar “livres de manchas e pecados”. Entre os antigos Romanos existia o Damnatio memoriae que quer dizer “condenação da memória”. No Direito romano, indicava a pena que consistia no apagamento de qualquer traço de lembrança de uma pessoa, como se essa jamais tivesse existido.

Também podemos remeter à Inquisição Espanhola, que perseguiu as heresias do século XV ao XIX, e aos julgamentos das bruxas de Salem, no final do século XVII, em Massachusetts, ambos um esforço conjunto da Igreja e do Estado, quando havia pouca distinção entre eles. Esses exemplos são relevantes apenas para mostrar como o uso arcaico da violência para afirmar a pureza evoluiu para servir às ideologias dos últimos dias. Na França, a esbórnia na guilhotina foi racionalizada como a busca do bem: um Reinado de Terror para produzir uma República da Virtude. (O líder revolucionário Maximilien Robespierre, que declarou em 1794 que, sem terror, “a virtude é impotente”, apoiou a futura eliminação da pena de morte, ao mesmo tempo em que ordenava execuções aos milhares.)

Cancelar alguém atualmente (geralmente uma celebridade ou outra figura conhecida) significa parar de dar apoio a essa pessoa. O ato de cancelar pode implicar no boicote aos filmes de um ator ou deixar de ler ou promover as obras de um escritor. O motivo do cancelamento pode variar, mas geralmente é devido à pessoa em questão ter expressado uma opinião questionável ou ter se comportado de uma forma que é inaceitável, de modo que continuar a patrocinar o trabalho dessa pessoa deixa um sabor amargo.

A ideia de cancelar ganhou força nos últimos anos devido a conversas estimuladas pelo #MeToo e outros movimentos que exigem maior responsabilidade de figuras públicas nas suas declarações e posturas. Há um aspecto performativo no cancelamento, que paradoxalmente amplia aquilo que se busca silenciar, mesmo que apenas por um momento. Cancelar alguém publicamente muitas vezes requer a tornar amplamente conhecido esse ato, o que torna o alvo do cancelamento um objeto/assunto de atenção e escrutínio por parte da mass media perante a opinião. O objetivo por trás do cancelamento é muitas vezes negar essa atenção, de modo que a pessoa perca o prestígio cultural.

Justificado ou não, cancelar alguém parece desagradável. Talvez seja porque nossa sensibilidade às palavras dolorosas de outros agora é algo de que não estamos mais nos esquivando, então precisamos de algo tão severo quanto cancelar alguém para expressar o quanto estamos indignados. Não vamos mais representar o racismo, o sexismo e outras transgressões que sabemos ferir as pessoas em nome de uma piada. São ações desumanizantes, então talvez precisássemos de uma palavra desumanizante para nos dirigir a esses perpetradores do vernáculo tóxico.

As Redes Sociais, principal arena da cultura do cancelamento, não são o equivalente moderno e digital da praça pública (a Ágora grega ou o Fórum romano), por mais que seja anunciada como tal. Pensamos nelas, as redes sociais, como um espaço aberto porque não pagamos entrada, esquecendo que são um empreendimento comercial, comprometido em nos pastorear. Somos clientes, fazendo o trabalho gratuito de tornar a plataforma mais valiosa.

Por enquanto, este é o circo que nos sacia, onde queimamos nossas efígies (Influencers digitais, atores e atrizes, pessoas públicas, autoridades e o cidadão/ã comum), esquecendo que são pessoas como nós, enquanto nossos senhores – os proprietários das redes sociais e suas marcas – nos observam de longe, as sobrancelhas franzidas, mas não muito preocupadas, ainda não. Ainda assim, esses “reis modernos” fariam bem em se lembrar: na narrativa de Sófocles, Édipo não foge de seu destino. Ele implora pelo exílio, para curar seu povo. Ele se cancela.”

 

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