ASTERIX : ENTRE A HISTÓRIA E O ENTRETENIMENTO

junho 16, 2021 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO Colaborador Permanente Prof. Dr. Giancarlo Moser, a nosso convite, produziu texto sobre o extraordinário personagem da literatura mundial , o ASTERIX. Merece a leitura de todos nós que respeitamos e valorizamos a criatividade inteligente e sempre atual. Vale a pena ler, como segue em inteiro teor.

“Desde a minha tenra infância, sou um leitor voraz e apaixonado pelas aventuras de Asterix e Obelix, que, inclusive, me influenciaram na escolha de minha profissão como Historiador e na minha atividade paralela de ilustrador e cartunista. Esses quadrinhos coloridos com tema francês de Goscinny e Uderzo oferecem diversão para crianças e adultos desde 1960, com um conjunto de histórias que retratam a vida de uma vila de gauleses situada por volta de 50 a.C. na Armórica, a Bretanha moderna, liderada pelo pequeno Asterix e pelo corpulento Obelix.

Pessoas em todo o mundo (as histórias foram traduzidas para mais de 100 idiomas) se deliciaram com suas aventuras enquanto eles viviam, trabalhavam e sempre resistiam à ocupação pelas forças romanas por todos os meios possíveis. A força destes gauleses era proporcionada por uma poção mágica, preparada pelo druida da aldeia, Panoramix, e, provavelmente, muita gente aprendeu mais com essas páginas sobre os Romanos e suas táticas de guerra (e sobre a história européia em geral) do que jamais aprenderia na escola, sendo inclusive que muitos de seus álbuns são utilizados como complemento em escolas européias para o estudo do passado dos povos europeus.

As aventuras de Asterix são ótimos exemplos de ficção em um cenário histórico muito adequado, adicionando piadas com elementos do mundo contemporâneo. No entanto, temos que levar em consideração que um gibi não é um livro de História, então eles podem não seguir as regras desta ciência. Podem incluir anacronismos (aspectos que não pertencem aos tempos históricos da história), erros, imprecisões, etc. Portanto, devemos distinguir a ficção da realidade histórica.

Na verdade, existe um monte de história real embutida nessas aventuras. Mesmo para os padrões do imperialismo romano, a guerra de conquista da Gália (França e Bélgica atuais) foi indescritivelmente violenta. Quando Vercingetórix, o mais formidável dos adversários de César, finalmente se rendeu em Alesia, em 52 a.C., ele estava cercado por milhares de cadáveres, com membros de cavalos e humanos horrivelmente emaranhados. Para os autores, o desafio era retratar a época de Júlio César de uma forma que fosse fiel à história e, ainda assim, uma recalibragem alegre dela. A brutalidade tinha que ser retratada como somente algo de fundo, como um mundo de lama e fogo repintado em cores primárias. Uderzo, que era daltônico, preferia muito mais a linha clara a qualquer sombra, e foi isso que permitiu que seus desenhos redefinissem a antiguidade de forma tão distinta em seus próprios termos.

As aventuras de Asterix o levam a muitos locais, incluindo: Espanha, Grécia, Egito, Índia, Roma e América (pré-colonial). As culturas estrangeiras são retratadas em estereótipos humorísticos, assim como os próprios franceses, e nestas viagens Asterix inevitavelmente contribui com algo substantivo para as culturas que visita, como a descoberta do chá pelos britânicos e a criação das batatas fritas pelos belgas, pois nenhum lugar visitado por Asterix e Obelix perdeu sua capacidade de tornar o Império Romano, e as terras além de suas fronteiras, como pertencentes a um mundo cômico único e coerente.

Simultaneamente, no entanto, é também um retrato de um período muito diferente: o das décadas após a Segunda Guerra Mundial. Nenhum outro artista do pós-guerra ofereceu aos europeus um retrato mais universalmente popular de si mesmos, talvez, do que Goscinny e Uderzo. Os estereótipos com os quais eles brincavam tão afetuosamente em seus cartuns – o espanhol arrogante, o belga amante de chocolate, o britânico rígido, o Grego culto, o judeu negociante – pareciam ser exatamente o que um continente prostrado pela guerra e pelo nacionalismo secretamente ansiava.

Uderzo, que viveu durante a ocupação nazista da França, certamente não precisava ser lembrado de quais poderiam ser as realidades da ocupação. “Toda a Gália está ocupada. Toda? Não exatamente!”. A aldeia dos indomáveis gauleses é possivelmente o mais brilhante antídoto para Vichy que a literatura francesa tem a mostrar, bem como são também uma crítica o avanço da cultura dos Estados Unidos e sua influência na França da segunda metade XX. As paliçadas de madeira que os rodeiam oferecem, simbolicamente, aos leitores a certeza absoluta de que sempre resistirão aos invasores, de que a maré da história nunca irá varrê-los, de que no final de cada aventura haverá sempre uma festa, com muito javali e sem o canto de Chatotorix, o bardo desafinado da aldeia.

A célebre pintura concluída em 1899 por Lionel Reyer, onde Vercingetorix joga suas armas aos pés de César, mal dá uma idéia da escala dessa matança (Julio César chegou a ser acusado de genocídio pelo próprio Senado Romano!).

Contudo, a Gália de Goscinny e Uderzo é uma terra de inocência alegre, quase jovial.”

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