IDOLATRANDO POLÍTICOS (ou “a destruição da Democracia”)

agosto 12, 2021 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO GIANCARLO MOSERO Prof. Dr. GIANCARLO MOSER, nosso Colaborador Permanente, trata da Idolatria de Políticos, em crônica na qual expressa sua opinião a respeito do relevante tema e traz estímulos para reflexão. Merece leitura atenta, em inteiro teor,  a seguir:

“Idolatria é um termo genérico para referir-se a quaisquer práticas de adoração a ídolos, sejam religiosos ou não; tais práticas estão subentendidas no conceito de idolatria como incoerentes com valores e ideias associadas a um Deus transcendente, e por tal natureza único. A idolatria é considerada um dos maiores pecados nas religiões abraâmicas. Não obstante, quais imagens, ideias e objetos, constituem idolatria, e quais constituem uma adoração válida é um assunto de discussões por autoridades e grupos religiosos. A palavra idolatria herda dos radicais gregos eidolon + latreia, onde eidolon seria melhor traduzido por “corpo”, e latreia significando “adoração” – neste sentido representaria mais uma adoração às aparências corporais do que de imagens simplesmente. Os povos da Antiguidade possuíam objetos representativos de suas divindades, como um ponto focal de adoração. Em geral, o deus maior nessas crenças idolátricas era o sol.

No mundo hodierno, de culturas fluídas no éter da Internet, para o bem ou para o mal, esta “cultura das redes sociais” está profundamente entrelaçada com a política, e recentemente ficou claro que isso pode ser uma bênção e uma maldição para a Democracia. Vivenciamos uma armadilha cada vez mais difundida entre os brasileiros de ambos os lados da divisão política: a glorificação de figuras políticas.

Como Sociedade, a polarização política que enfrentamos atualmente nos levou a fomentar relações parassociais com os políticos. Agimos como se os conhecêssemos como amigos casuais em vez de líderes de país. Ao fazer isso, minamos a democracia brasileira e a respeitabilidade da presidência, enquanto perpetuamos ainda mais a polarização política no país. Ser político é um trabalho e, embora possa respeitar o trabalho que esses ‘funcionários do governo’ estão fazendo, não devo conceder a eles um status de intocável.

As relações parassociais, inicialmente cunhadas por Horton e Wohl em 1956 (apud Hartmann & Dibble, 2016), fazem referência a relações psicológicas unilaterais nos meios de comunicação de massa em que o público sente que conhece as personalidades da televisão como amigos, aplicando-se, neste caso, aos políticos. Apoiadores de um político específico investem tempo, energia e interesse consideráveis em seu candidato.

O poder tem uma tendência engraçada de entrar na cabeça das pessoas e mudar radicalmente a maneira como elas interagem com as pessoas.

O poder torna você menos empático com as situações dos outros, menos compassivo e menos disposto a manter relacionamentos interpessoais próximos, como assevera Umberto Eco (1984, p. 47): “O político argumenta com sutileza, apoiado pela autoridade, para fundamentar em bases teóricas uma práxis de formação”.

Muitas dessas qualidades fazem um grande político, mas o poder que vem com o trabalho pode mudar seu caráter. Sua percepção da situação do cidadão fica distorcida. Se eles se importam menos com as pessoas ao seu redor, é mais provável que se envolvam em comportamentos que prejudicam mais seus cidadãos do que os beneficiam.

Um fator que tem gerado muita tensão entre os brasileiros é a idolatria de seus candidatos aos cargos do Executivo, notadamente à Presidência da República. Idolatrar um político refere-se a colocar um indivíduo em um pedestal metafórico, muitas vezes sem reconhecer algumas falhas que ele poderia ter ou erros que cometeu no passado, pois é claro que os políticos não são 100% perfeitos.

Na verdade, ninguém realmente é! Somos todos humanos, por isso nunca podemos estar verdadeiramente livres de falhas. Claro, existem candidatos que estão mais alinhados com nossas próprias crenças individuais, mas é importante lembrar que eles ainda têm falhas. Eles podem cometer erros e cometer erros mesmo depois de os termos eleito.

Muitos apoiadores de políticos tendem a acreditar que quem quer que eles apoiem é o melhor, descartando quaisquer comentários negativos da mídia como falsos. No entanto, para que uma democracia tenha sucesso, é importante não ser apenas um seguidor ou apoiador de seu candidato, mas também um crítico daqueles que são eleitos para nos representar. Não acredite apenas na mídia positiva que é escrita sobre eles, lembre-se de levar em consideração quaisquer falhas que eles possam ter. Responsabilize-os por ações que possam ser questionáveis ou declarações contrárias ao que eles declararam antes.

Apoiadores de ambos os lados do espectro político são culpados de idolatrar políticos, ou mesmo partidos políticos inteiros. Mas, como indivíduos que vivem em um país democrático precisaram estar cientes dos pontos positivos e negativos em relação às nossas autoridades eleitas, se não apenas pelos seus próprios interesses pessoais, mas pelo bem-estar dos outros.  Os políticos não são celebridades e não devem ser tratados como tal.

Quando os líderes são colocados em um pedestal, isso permite que erros cruciais de poder escapem pelas fendas, provocando deletérias fissuras no frágil tecido social.”

Referências:

  • DIBBLE, Jayson L., HARTMANN, Tilo. “Interação Parassocial e Relação Parasocial: Esclarecimento Conceitual e uma Avaliação Crítica de Medidas.” Human Communication Research, vol. 42, não. 1, 2016, pp. 21-44, https://doi.org/10.1111/hcre.12063

  • ECO, Umberto. Viagem na Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.”

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Este Blog sucede ao www.advocaciapasold.com.br que foi visitado 109983.

Esta página já foi visitada 1816392 vezes.

Site disponibilizado pela primeira vez em 18 de novembro de 2015.
Última atualização em 26 de Setembro de 2021.
Responsável Técnico: Leonardo Latrônico Prates
Responsável Geral: Prof. Dr. Cesar Luiz Pasold