O IASC E O ENFRENTAMENTO AO SUICÍDIO

setembro 12, 2021 Cesar Luiz Pasold Informações 0 comentários

FOTO ADVOGADA CARLA RAIMUNDOA Advogada CARLA RAIMUNDO- OAB/SC n. 55.450 (Presidente da Comissão de Enfrentamento ao Suicídio do Instituto dos Advogados de Santa Catarina-IASC, Engenheira Agrônoma pela UFSC, Especialista em Naturologia Aplicada pela UNISUL, Pós Graduada em Direito Previdenciário pela CESUSC, Secretária da Casa da Cultura Jurídica em várias gestões) , atendeu nosso convite e produziu texto especial  sobre o enfrentamento ao suicídio e o IASC. Merece leitura atenta ,com  reflexões e o engajamento às ações de enfrentamento ao suicídio. Inteiro teor, a seguir:

“Setembro chegou e vestiu-se de amarelo!

Vestiu-se na cor eleita para simbolizar a luta contra o suicídio, mal que acomete um número cada vez maior de brasileiros, estando atrás, apenas, da violência urbana e dos acidentes de trânsito como causa de morte de jovens com idades entre 15 e 29 anos.

Em tempos de COVID, nos quais milhões de pessoas lutam, desesperadamente, para manterem-se vivas, nos deparamos com a  inabilidade que temos de lidar com o suicídio, que ceifa quase um milhão de vidas todos os anos, ao redor do mundo, muitas delas de pessoas com saúde física plena. Só no Brasil, são cerca de 11.000 suicídios ao ano.

Apesar de ser tratado pela Organização Mundial da Saúde como uma epidemia silenciosa, o suicídio é um problema de saúde pública não enfrentado adequadamente,

A falta de visibilidade, em razão das normas que regem a divulgação do suicídio na mídia, visando a evitar o estímulo a novos casos, faz com que esse seja um problema subestimado.  Faz com que pensemos que são raros os casos ocorridos e que esse mal está longe de nós, o que constitui um enorme equívoco, na medida em que o suicídio não escolhe classe social, idade, raça, sexo ou tipo físico.

Talvez pelo estigma que envolve a questão ou, mesmo, por nossa resistência a pensar sobre a morte, temos dificuldade de abordar o tema abertamente.

Já é consabido que falar sobre suicídio não estimula a ocorrência desse fenômeno. No entanto, calar-se sobre o tema possibilita a consumação de muitas mortes que poderiam ser evitadas. E, de acordo com a OMS, cerca de 90% dos suicídios podem ser evitados.

BOTEGA (2015)[1] esclarece que o suicida, no geral, não quer morrer, quer, somente, calar a dor profunda que lhe acomete a alma e com a qual, por algum motivo, não consegue lidar. SCHNELDMAN (apud BOTEGA, op. cit), considerado o Pai da Suicidologia, afirma que, em suicídio, a palavra-chave não é a morte, mas “psychache”, a dor da alma, termo por ele cunhado. Essa dor psíquica insuportável leva a um estreitamento cognitivo e a pensamentos dicotômicos, passando o suicídio a ser visto como única saída possível.

O suicídio pode ser planejado, caso o indivíduo possua uma ideação que se perpetua no tempo, ou pode ser feito de inopino, mormente em situações de vergonha ou culpa extremas, desonra ou outra situação com o qual ele não consegue lidar racionalmente naquele momento, o que faz com que ceda à pulsão da morte, que contraria o instinto natural de preservação da vida. Muitas pessoas que foram dissuadidas de cometer suicídio, contudo, reconhecem que as possíveis causas para o ato eram problemas de ordem menor ou de fácil solução, mas, que, no entanto, entrou em ressonância com alguma ferida já existente na alma.

Fato é que a literatura especializada propugna que o suicídio é, sempre, um ato complexo. CASSORLA (2021)[2], por exemplo, afirma que “o ato suicida constitui o evento final de uma complexa rede de fatores que foram interagindo durante a vida do indivíduo […]”.

Já SALOMON (2018)[3] nos apresenta o suicídio como um “crime de solidão”. Efetivamente, muitos sobreviventes de tentativas de suicídio afirmam que gestaram a ideia de pôr fim às suas vidas em momentos nos quais se sentiam na mais absoluta solidão, que persistia mesmo quando tinham muitas pessoas ao seu redor. Muitos deles se ressentiam de não ter quem os ouvisse sem julgamentos, com empatia e com atenção, ou, ainda, de não terem sido acolhidos em sua dor.

De fato, às vezes negligenciamos pedidos de socorro, porque, na vida cotidiana, alguns de nossos contatos são empaticamente pobres ou apressados. Ou, ainda, porque levantamos defesas psíquicas fortes quando uma situação dessa nos acerca, o que torna nossa percepção embaçada. Talvez porque não queiramos nos responsabilizar por alguém que quer pôr fim à própria vida ou por termos resistências de várias ordens (legais, religiosas, culturais) à prática do suicídio ou, ainda, porque não saberíamos, de qualquer modo, o que fazer em eventual situação criada pela manifestação da intenção suicida de alguém. (BOTEGA, op. cit.) Ou, quem sabe, por pensarmos que, não sendo psicólogos ou médicos, não temos qualquer ascendência sobre a situação?

Contrario sensu a esse pensamento, a psicóloga Karina Fukumitsu, autora de vários livros sobre o assunto, afirma, enfaticamente, que qualquer pessoa pode fazer o primeiro acolhimento ou primeira abordagem, ouvindo o potencial suicida – sem interrompê-lo com suas opiniões acerca dos  problemas apresentados ou com soluções instantâneas para eles -, validando a sua dor, que, de todo modo, lhe é legítima, e o conduzindo (não apenas sugerindo) para os serviços e profissionais especializados, que possuem habilidades específicas para tentar evitar o suicídio.

Diante da constatação de que a maior parte dos suicídios pode ser evitada e de que todos podemos agir para evitá-los, o IASC resolveu abraçar a causa da prevenção do suicídio, criando, para tanto, uma Comissão própria, que tem por missão  promover ações junto às escolas e ao público, de forma ampla, visando a trazer a questão a lume e, com o apoio e supervisão de profissionais da área da saúde e de voluntários do CVV, esclarecer pais, professores e estudantes, bem como a população, em geral, acerca de estratégias possíveis para a redução do número absurdo de suicídios com o qual hoje convivemos, dando uma chance para que a crise existencial seja ressignificada e o indivíduo possa reconciliar-se com a vida.

Além do material impresso a ser distribuído especialmente nas escolas, a prevenção do suicídio será abordada no site www.enfrentandoosuicidio.com e nas páginas da Comissão junto às redes sociais, visando a atingir, efetivamente, seu público-alvo prioritário, que são os jovens.

Todos estão convidados a participar.

Para mais informações, visite nosso site.

[1] BOTEGA, Neury José. CRISE SUICIDA. Avaliação e Manejo. Porto Alegre: ARTMED, 2015.

[2] CASSORLA, R.M.S. ESTUDOS SOBRE SUICÍDIO. Psicanálise e saúde mental. São Paulo: Blucher, 2018.

[3] SALOMON, Andrew. UM CRIME DE SOLIDÃO. Reflexões sobre o suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. “

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